“O Paraíso repousa na sombra da Espada!”

Hassan Sabbah, o Velhor da Montanha.

Por João Fábio Braga

Ao meu amigo e irmão Renato Martins

No momento atual, o ocidente se debruça com o avanço do Estado Islâmico e sistematicamente vem condenando seus métodos homicidas contra cristãos, jornalistas, homossexuais e mulçumanos considerados “traidores”. No passado, na baixa idade, nos períodos dos séculos XI e XIII, a Ordem dos Assassinos despertou temor e medo nos medievos da região do oriente médio.

Naqueles tempos, a seita que era dissidente do islã e tinha dois propósitos a realizar: difundir uma doutrina religiosa, conhecida como ismaelismo, de corrente xiita; a outra de expandir o poder político por várias regiões. O idealizador da doutrina e o Grão-Mestre dos Nizarins, nome oficial, foi o missionário ismaelita Hassan Ibn Sabbah, o velho da montanha (1034-1124). Depois que ele retornou do Egito a Qom, cidade que nasceu, na Pérsia, fundou uma ordem secreta com objetivo de eliminar seus inimigos, sobretudo àqueles da casa real egípcia e de Bagdá.

Para atender os propósitos da sua missão, Hassan criou uma ordem, com extremos rigores do militarismo, capaz de executar seletivos assassinatos que alvejariam sutões, virizes, xeques, mulás, ulemás ou todos aqueles que contrariavam sua ambição de poder. Dizem na época que seu exército se estimava em sessenta mil homens e mulheres altamente treinados. Para tanto, era necessário convencer os futuros neófitos, Hassan se inspirou nos antigos rituais de iniciação, adotados pelos gnósticos; na ciência esotérica – a batanya –; e no culto aos sinais secretos. Os membros só poderiam alcançar esses conhecimentos depois de muita disciplina e dedicação ao estudo. Tratou também de cultivar uma soberba biblioteca, considerada uma das mais completas daquele tempo, não vendo nenhuma contradição entre harmonizar a alta cultura islâmica com a prática de assombrosos atentados magnicídas.

Em pouco tempo, Hassan Sabbah, o xeque das montanhas, criava a base de uma teologia totalitária, onde um só deus (Alah) se fazia representar por um só Imam (um líder espiritual), e por um só representante (o próprio Hassan), com autoridade de vida e morte sobre os seus seguidores. Difundiu uma visão trágica do mundo, julgando-o perdidamente maculado pela heresia e pelo desacerto dos governantes; declarou guerra à religião oficial, o Islamismo sunita, e também às dinastias que reinavam na região. Líder de uma seita absolutamente minoritária, Hassan Sabbah percebeu que poderia impor-se naquelas circunstâncias por meio do terror.

A foto foi retirada de uma das franquias de maiores sucesso dos vídeos games, Assassin’s Creed. O jogo retrata o protagonismo da Ordem dos assassinos sob o personagem, o Mestre Assassino Altair Ibn-La’Ahad O corte do dedo anelar esquerdo como parte do ritual de iniciação nunca existiu de fato. Mas no game, o sacrifício existe, porque ao cortar o dedo anelar esquerdo, o iniciado manifesta tanto a fé na ordem como também sem o dedo anelar, facilitaria manusear com destreza e habilidade a arma chamada Hidden Blade (Lâmina Escondida), pois a lâmina passaria sobre o local onde o dedo estava, deixando-a oculta.

Para fazer parte da irmandade, segundo conta a história, Hassan Sabbah impôs um rigoroso exame de admissão. Entre os iniciados constavam crianças abandonadas que foram recolhidas ou compradas por ele de casais miseráveis, com intuito de fazer delas o seu exercito de fanáticos, capazes de executar qualquer missão por ele ordenada, mesmo que isso lhes custasse a vida. Carentes de tudo, os jovens aspirantes nizarins viam-no com um deus-pai, dedicando-se integralmente a sua vontade, jamais ousando criticar uma ordem sequer. Certa vez, durante a visita de um emir, querendo demonstrar a lealdade de seus homens, Hassan pediu que um de seus homens se suicidasse, ordem que foi cumprida imediatamente na frente de todos.

A Ordem dos Nizarins continham sete graus de iniciação, os quais todo iniciado deveria buscar: 1) saber selecionar os seus integrantes, 2) ganhar a confiança do aspirante, 3) suprimir-lhe as dúvidas, 4) ensiná-lo a jamais trair a irmandade, 5) mostrar-lhe a magnitude do poder da ordem, 6) submetê-lo à prova e fazê-lo aceitar que “O Paraíso repousa na sombra da espada”, 7) orientá-lo na interpretação esotérica do Al Corão.

O lugar de refúgio e de treinamento situava-se num lugar isolado do mundo, com ambiente hostil e árido, tido como intransponível e protegido por Alah, conhecido como a fortaleza de Alamut, o ninho da águia ou da serpente, localizado nos montes Elburz, ao norte do Irã, à margem sul do Mar Cáspio.

Dentro da fortaleza, os assassinos andavam uniformizados, em trajes brancos com cordões vermelhos em torno das cinturas. Quando recebiam uma missão, camuflavam-se; misturando-se aos mendigos das cidades da Síria, da Mesopotâmia, do Egito e da Palestina, com a intenção de não despertarem qualquer suspeita. O método era eficiente: uma vez “adormecidos”, “despertavam” quando algum emissário lhes traziam a ordem para atacar. O magnicídio nunca era cometido apenas por um, mas no mínimo de três assassinos. Caso dois punhais fracassassem, existiria um terceiro a completar o serviço. Os lugares a se cometer essas práticas iam de mercados, ruas estreitas, dentro dos palácios e até mesmo o silêncio das mesquitas, sempre quando as vítimas se descuidavam.

No livro O Código Da Vinci, de Dan Brown, o escritor sustenta a tese de que por uso do estupefaciente Hashishiyun, o Haxixe, um poderoso alucinógeno visual, um dia antes dos ataques, os fanáticos obteriam a visão do paraíso, especialmente do Jardim das delícias, para onde iam e seriam recebidos, segundo o Alcorão, por “huris, virgens, de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito (…). Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos.” Alcorão, surata 56, versículos 12-40.

Os pesquisadores alertam que a utilização da droga atrapalharia a eficiência dos ataques, exatamente por ter delta-thc mais forte do que a maconha (componente psicoativo muito elevado). Mais de toda forma, Hassan Sabbah usaria Hashishiyun nos rituais de iniciação que estimularia a tal visão do paraíso e o propósito das missões. Por causa dessas práticas, segundo relatos dos viajantes, o termo Assassino provém de Hashishiyun, significa “fumador de haxixe”. Porém existe outra versão, muito mais crível e dentro das práticas doutrinárias do grupo. O próprio Hassan costumava chamar seus discípulos de Asasiyun, o praticante dos “fundamentos” da fé islâmica Ismaelita chamados de Assass.

Cena do Ritual retirada do jogo de video game Assassin's Creed

Cena do Ritual retirada do jogo de video game Assassin’s Creed

A influência da Ordem chegou a se estender da Pérsia à Palestina, passando pela Síria, numa logística incrível de ocupação de fortes e fortins, de medo e pavor. Odiados tanto por sunitas e xiitas, foi inevitável se aproximarem dos cavaleiros cruzados, ambos tendo inimigos comuns. A relação entre fanatismo de fé e rigorosa disciplina militar fascinou o cavaleiro cristão Hugo de Payens e outros cavaleiros que decidiram, no ano de 1118, fundar a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecidos como Ordem dos Cavaleiros Templários. A dedicação integral e absoluta dos devotos, a abjuração de tudo, inclusive da vida, a cega obediência e o espírito de ordem monástico-guerreira que os tornava membros de uma cavalaria espiritual, logo estreitou ainda mais o ideário dos cavaleiros cristãos com dos assassinos. Os templários não só adotaram uma série de preceitos e regulamentos tomados emprestados da Ordem dos Assassinos, como também fizeram suas as cores deles: o branco e o vermelho.

Com toda certeza, a aproximação dessas duas ordens motivaram o fascínio de muitos europeus a congregarem ao redor de lojas esotéricas, com rígidos rituais de iniciação e de segredos, hábitos tomados na época das cruzadas, provavelmente lhes foi instilado pelos feitos da Ordem dos Assassinos.

O fim da Ordem ocorreu no ano de 1260. A fortaleza tida como inexpugnável, nenhuma força qualquer abalaria, foi destruída pelo líder mongol Hulagu Khan, sem pena e sem piedade, não deixando rastro da fortaleza. Os sobreviventes da ordem fugiram à Europa. O seu fascínio e seus mistérios impressionaram muitas gerações e perduraram em incontáveis ordens posteriores.

Diante dos fatos que a história relata, ontem e hoje, não podemos fechar os olhos à barbaridade que o ser humano pode cometer. A Ordem dos Assassinos simboliza ainda vivo o quanto a ignorância humana banaliza a vida de milhares de pessoas em objeto maligno a serviço do fanatismo e da tirania.

Anúncios
Esse post foi publicado em Curiosidade, Esoterismo, História, Reflexão. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para “O Paraíso repousa na sombra da Espada!”

  1. Pingback: O Refúgio dos Magos | Ideias, Ensaios e Paixões

Deixe comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s