Ciência ou Tecnologia: eis a questão!?

eureka

Por João Fábio Braga

O escritor romano Vitruvius relata, no século I a.C., um incidente ocorrido dois séculos antes. Hero II, rei da Sicília, ordenara uma nova coroa de ouro. Quando a coroa foi entregue, o rei desconfiou que o ourives houvesse substituído parte do ouro por prata, ou seja, que tivesse fundindo os dois para que a cor parecesse com a de ouro puro. O rei intrigado pediu ao engenheiro-chefe da corte Arquimedes que investigasse o problema.

Numa casa pública de banhos, em Siracusa, Arquimedes gritou: “Eureca!” e saiu do banho e correu pelas ruas para anunciar que havia descoberto como medir a quantidade de ouro na coroa do rei!

Arquimedes se tornou o símbolo clássico de gênio científico inspirado ou mesmo se construiu através dele a ideia popular e caricata do cientista maluco, àquele que inventa “geringonças infalíveis”, procurando solucionar problemas às questões teóricas, ignorando qualquer contemplação e realizando experimentos que resultassem indispensáveis à praticidade cotidiana (tentativa e erro faziam parte deste processo!).

pardal

O Professor Pardal é o inventor mais famoso de Patópolis, é um amigo das pessoas e tem bons sentimentos com todo mundo embora ocasionalmente provoque reações irritadas devido a alguns desastres provocados pelos seus inventos.

 

Então, Arquimedes pode ser alçado à condição de mito ou herói da ciência ou da tecnologia? Podemos responder da seguinte maneira: ele não era nem cientista nem tecnólogo, pois não existiam essas ocupações na época em que viveu, porém se aproximou mais de outro estereótipo moderno – o de filósofo teórico.

Entretanto, a ciência é um assunto ao mesmo tempo prático e teórico; as construções de modelos abstratos são importantes, mas necessitam ser testados experimentalmente e comparados com observações do mundo real. Entre esses termos, “ciência” – do latim scientia – significava “conhecimento” ou significava algo mais ligado ao conhecimento adquirido em livros; a “tecnologia”, cunhada no século XIX, – do grego techne – implica conhecimento adquirido através de trabalho prático.

O conhecimento científico estava restrito às pessoas ricas e instruídas, – homens, em sua maioria. Os cientistas olhavam com desprezo para os engenheiros que “colocavam mãos à obra” e ganhavam dinheiro com invenções próprias. Da mesma forma, os privilegiados filósofos gregos davam à techne um sentido pejorativo, ao associar a destreza manual à necessidade de ganhos econômicos.

O contexto social e acadêmico da Grécia antiga eram drasticamente diferentes do contexto atual. Dois setores da sociedade grega influenciaram o que se tornaria a ciência: os filósofos e as pessoas mais humildes. Os indivíduos pertencentes ao primeiro grupo são celebrados, assim como já vimos acima, em geral, consideravam a experiência prática indigna e irrelevante.

Diferente dos primeiros, os indivíduos do segundo grupo viviam em camadas sociais inferiores, por isso mesmo acabaram esquecidas, sobretudo quando essas pessoas, em número maior, exerceram vital importância para os rumos da ciência. Enquanto muitos conceitos teóricos vieram dos filósofos gregos, outros aspectos da ciência tiveram origem em indivíduos menos privilegiados cujas soluções foram pragmáticas e adaptáveis à sobrevivência.

É desses esquecidos que o mundo que conhecemos sempre se transformou. Foram mineiros que desenvolveram técnicas de refino de minerais, fazendeiros que descobriram padrões climáticos, fabricantes de produtos têxteis que aprenderam sobre reações químicas. Assim como esses exemplos, a ciência da Mecânica evoluiu através da necessidade de solucionar problemas da vida real: erguer pontes, construir sistemas de irrigação, criar roldanas eficientes, projetar armas de guerra efetivas.

Enquanto os filósofos se preocupavam em medir o universo e explicar o mundo, os construtores desenvolveriam a trigonometria básica necessária para erguer uma parede vertical; os matemáticos práticos interessavam-se em descrever os fenômenos da natureza. Em geral, os especialistas em mecânica vinham de camadas sociais mais inferiores à dos teóricos, pois possuíam objetivos diferentes dos deles.

franginha

Franjinha é um personagem da Turma da Mônica. Ele adora ser cientista e é o inventor da turma e todos recorrem a ele por causa dos seus inventos.

 

Apesar de Arquimedes ter descoberto as propriedades dos fluidos[1]; ele não se preocupava tanto com questões práticas. À prova disso são seus livros que mais tratavam de suas descobertas matemáticas, do que as suas invenções técnicas. Além de ressaltar o talento do criador, era muito mais interessante provocar admiração e prestígio entre os colegas, do que se dedicar e, logo após, cair no ostracismo por ser inventor de “engenhocas”. E, no final das contas, essas invenções acabavam se tornando semelhantes a brinquedos e sem aplicação prática alguma.

Segundo se conta, Arquimedes obcecado em terminar um diagrama geométrico na areia foi golpeado por uma espada de um soldado irritado e veio a perecer. Outro relato, o Vitruvius conta que a coroa de Hero tinha, de fato, um pouco de prata e o ourives foi devidamente punido.

Na época, ainda não se falava em cientistas nem tecnólogos, mas os fundamentos da distinção hierárquica entre esses dois grupos já estava lançada. Pórem, atividade de uma não anula a outra, são complementares; e é sem dúvida a grande força e vocação da nossa civilização.

 

[1] O princípio de Arquimedes afirma que a impulsão de um objeto em fluido é igual ao peso de fluido que o objeto desloca, isto é, esse princípio explica como objetos feitos de material denso ainda podem flutuar em volume líquido.

 

Referências:
FARA, PATRICIA. “Uma Breve História da Ciência”. São Paulo: Ed. Fundamento Educacional, 2014.
HART-DAVIS, ADAM (colaborador). “O livro da Ciência”. São Paulo: Ed. Globo Livros, 2014.de
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Uma resposta para Ciência ou Tecnologia: eis a questão!?

  1. Márcia Rejane disse:

    Muito interessante a relação  que você  expõe entre a história de Arquimedes com as atuais e/ou recentes descobertas  e invenções do mundo contemporâneo. Se, olharmos para nossas condições sociais, poderíamos pensar que não somos pessoas capazes de criar, pensar, agir, fazer… Ora, se no passado, Arquimedes consegue descobrir a teoria da relatividade, com a ausência da tecnologia, imagina o homem contemporâneo? Com toda essa gama de informações pertinentes ao conhecimento científico. Ele poderá alcançar lugares  jamais imaginados. Parabéns pelo texto!

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