Ciência ou Tecnologia: eis a questão!?

eureka

Por João Fábio Braga

O escritor romano Vitruvius relata, no século I a.C., um incidente ocorrido dois séculos antes. Hero II, rei da Sicília, ordenara uma nova coroa de ouro. Quando a coroa foi entregue, o rei desconfiou que o ourives houvesse substituído parte do ouro por prata, ou seja, que tivesse fundindo os dois para que a cor parecesse com a de ouro puro. O rei intrigado pediu ao engenheiro-chefe da corte Arquimedes que investigasse o problema.

Numa casa pública de banhos, em Siracusa, Arquimedes gritou: “Eureca!” e saiu do banho e correu pelas ruas para anunciar que havia descoberto como medir a quantidade de ouro na coroa do rei!

Arquimedes se tornou o símbolo clássico de gênio científico inspirado ou mesmo se construiu através dele a ideia popular e caricata do cientista maluco, àquele que inventa “geringonças infalíveis”, procurando solucionar problemas às questões teóricas, ignorando qualquer contemplação e realizando experimentos que resultassem indispensáveis à praticidade cotidiana (tentativa e erro faziam parte deste processo!).

pardal

O Professor Pardal é o inventor mais famoso de Patópolis, é um amigo das pessoas e tem bons sentimentos com todo mundo embora ocasionalmente provoque reações irritadas devido a alguns desastres provocados pelos seus inventos.

 

Então, Arquimedes pode ser alçado à condição de mito ou herói da ciência ou da tecnologia? Podemos responder da seguinte maneira: ele não era nem cientista nem tecnólogo, pois não existiam essas ocupações na época em que viveu, porém se aproximou mais de outro estereótipo moderno – o de filósofo teórico.

Entretanto, a ciência é um assunto ao mesmo tempo prático e teórico; as construções de modelos abstratos são importantes, mas necessitam ser testados experimentalmente e comparados com observações do mundo real. Entre esses termos, “ciência” – do latim scientia – significava “conhecimento” ou significava algo mais ligado ao conhecimento adquirido em livros; a “tecnologia”, cunhada no século XIX, – do grego techne – implica conhecimento adquirido através de trabalho prático.

O conhecimento científico estava restrito às pessoas ricas e instruídas, – homens, em sua maioria. Os cientistas olhavam com desprezo para os engenheiros que “colocavam mãos à obra” e ganhavam dinheiro com invenções próprias. Da mesma forma, os privilegiados filósofos gregos davam à techne um sentido pejorativo, ao associar a destreza manual à necessidade de ganhos econômicos.

O contexto social e acadêmico da Grécia antiga eram drasticamente diferentes do contexto atual. Dois setores da sociedade grega influenciaram o que se tornaria a ciência: os filósofos e as pessoas mais humildes. Os indivíduos pertencentes ao primeiro grupo são celebrados, assim como já vimos acima, em geral, consideravam a experiência prática indigna e irrelevante.

Diferente dos primeiros, os indivíduos do segundo grupo viviam em camadas sociais inferiores, por isso mesmo acabaram esquecidas, sobretudo quando essas pessoas, em número maior, exerceram vital importância para os rumos da ciência. Enquanto muitos conceitos teóricos vieram dos filósofos gregos, outros aspectos da ciência tiveram origem em indivíduos menos privilegiados cujas soluções foram pragmáticas e adaptáveis à sobrevivência.

É desses esquecidos que o mundo que conhecemos sempre se transformou. Foram mineiros que desenvolveram técnicas de refino de minerais, fazendeiros que descobriram padrões climáticos, fabricantes de produtos têxteis que aprenderam sobre reações químicas. Assim como esses exemplos, a ciência da Mecânica evoluiu através da necessidade de solucionar problemas da vida real: erguer pontes, construir sistemas de irrigação, criar roldanas eficientes, projetar armas de guerra efetivas.

Enquanto os filósofos se preocupavam em medir o universo e explicar o mundo, os construtores desenvolveriam a trigonometria básica necessária para erguer uma parede vertical; os matemáticos práticos interessavam-se em descrever os fenômenos da natureza. Em geral, os especialistas em mecânica vinham de camadas sociais mais inferiores à dos teóricos, pois possuíam objetivos diferentes dos deles.

franginha

Franjinha é um personagem da Turma da Mônica. Ele adora ser cientista e é o inventor da turma e todos recorrem a ele por causa dos seus inventos.

 

Apesar de Arquimedes ter descoberto as propriedades dos fluidos[1]; ele não se preocupava tanto com questões práticas. À prova disso são seus livros que mais tratavam de suas descobertas matemáticas, do que as suas invenções técnicas. Além de ressaltar o talento do criador, era muito mais interessante provocar admiração e prestígio entre os colegas, do que se dedicar e, logo após, cair no ostracismo por ser inventor de “engenhocas”. E, no final das contas, essas invenções acabavam se tornando semelhantes a brinquedos e sem aplicação prática alguma.

Segundo se conta, Arquimedes obcecado em terminar um diagrama geométrico na areia foi golpeado por uma espada de um soldado irritado e veio a perecer. Outro relato, o Vitruvius conta que a coroa de Hero tinha, de fato, um pouco de prata e o ourives foi devidamente punido.

Na época, ainda não se falava em cientistas nem tecnólogos, mas os fundamentos da distinção hierárquica entre esses dois grupos já estava lançada. Pórem, atividade de uma não anula a outra, são complementares; e é sem dúvida a grande força e vocação da nossa civilização.

 

[1] O princípio de Arquimedes afirma que a impulsão de um objeto em fluido é igual ao peso de fluido que o objeto desloca, isto é, esse princípio explica como objetos feitos de material denso ainda podem flutuar em volume líquido.

 

Referências:
FARA, PATRICIA. “Uma Breve História da Ciência”. São Paulo: Ed. Fundamento Educacional, 2014.
HART-DAVIS, ADAM (colaborador). “O livro da Ciência”. São Paulo: Ed. Globo Livros, 2014.de
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O Sol da Meia-Noite

jesus desceu ao inferno I

A descida do Cristo ao Inferno, evangelho apócrifo segundo Nicodemos

Por João Fábio Braga

No evangelho apócrifo de Pedro, Perguntam a Jesus:  “Porventura pregaste a eles que dormissem?”

Krishna, Moisés, Zoroastro, Elias, Buda, Pitágoras, Sócrates e Apolônio ajudaram a guiar a humanidade por meio da consciência espiritual, principalmente no momento em que a queda atinge o ponto mais denso e mais escuro. Apesar de eles trazerem fé e esperança, é Jesus Cristo que aparece e traz o amor em plena noite de profunda escuridão no mundo.

O contexto, à época do Império romano, os homens estavam completamente alienados à dimensão espiritual, o que se enxerga é uma civilização que mantém a institucionalização de uma terrível e sanguinária cultural da crueldade, alicerçada ao atomismo e ao ateísmo de Demócrito e Lucrécio.

É nesse período que, a consciência divina, por meio de Jesus Cristo, começaria um processo de dissolução e espiritualização da matéria e da transformação drástica da história do mundo. As mudanças drasticamente não apenas ocorreram no mundo material, mas no mundo espiritual também.

Segundo os místicos e alguns livros apócrifos, Jesus Cristo desceu ao inferno após a sua morte, com propósito de quebrar os grilhões e iluminar os espíritos encarcerados à sombra da morte pelo pecado. Jesus estendeu a mão e disse: “Vinde a mim todos que foram criados à minha imagem e que foram condenados pela árvore do fruto proibido e pelo diabo e a morte”.

Assim como Moisés liderou a saída do povo hebreu do Egito, Jesus conduz o povo para fora do mundo dos mortos em direção à Luz. Foi nessa escuridão, segundo os relatos, que a ressurreição de Jesus Cristo subitamente iluminou os mundos espirituais, tornando possível a ressurreição de todos.

O evangelho de Mateus registra que naquela noite que Jesus morreu, os mortos perambularam pelas ruas de Jerusalém. Após morte e ressurreição, os místicos afirmam que grandes eventos nos mundos espirituais começaram a gerar uma demasiada produção de eventos sobrenaturais na superfície da Terra.

Contudo, os tempos eram sombrios – era meia-noite no mundo histórico – quando Jesus iluminou o interior da Terra e ali ter plantado à meia-noite a semente da sua natureza solar. E não demorou a germinar a ideia do que disse Jesus num texto apócrifo: “O reino de Deus está dentro de você”. A busca por esse reino interior, logo tornariam as pessoas cristãs. Eis o grande mistério da visão cósmica do cristianismo que permeia e conduz a história, os fatos e as mentes e que muitas vezes é negligenciada nestes tempos materialistas.

 

 

Divulgar Blogs

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O Refúgio dos Magos

jinn

 

Por João Fábio Braga

“Todos os homens estão dormindo. Eles só despertam quando morrem.” Maomé

Certas histórias do mundo incluem partes descartadas pelos historiadores convencionais, sobretudo àquelas que navegaram no imaginário coletivo: a magia é uma delas.

“Acreditar em magia” pode ser entendido de dois modos; ou acredita, numa visão materialista, que a “magia” não passa do que um subproduto da matéria; ou acredita que ela realmente funciona.

Alguns registros apócrifos e textos divulgados na informalidade descrevem que, além dos vivos, Jesus Cristo desceu ao inferno para levar a Luz aos mortos encarcerados, pois os mesmos eram vistos, a partir daquele momento, igualmente, pertencentes à mesma comunidade.

Porém, o outro lado dessa história, transmitida por textos secretos e oralmente, a descida do Cristo ao inferno aumentou a atividade demoníaca e a aparição de mortos, ou seja, o limite entre os mundos físicos e espiritual tornou-se muito tênue, junto à proliferação de religiões, filosofias e seitas.  Ao mesmo tempo, fecharam-se os grandes centros de mistério como Luxor, Karnak, Delfos, Corinto e Elêusis, onde a permissão de acessar os mundos espirituais era operada sob condições controladas. Fora dos limites estritamente vigiados das escolas de mistérios, a sabedoria dos sacerdotes escoou para o mundo externo, generalizando uma cultura de experimentação do ocultismo. Toda essa experimentação será importante para o desenvolvimento futuro da ciência moderna.

Diante desse cenário, após o desmoronamento das civilizações do mundo antigo e o encerramento dos templos de mistérios ligados aos grandes templos públicos, os sacerdotes, os magi, foram banidos para o mundo subterrâneo, outros se viram obrigados a fugir para o Sul da Arábia e outras regiões próximas. Talvez essa seja um das razões para que tal região tenha se agigantado na imaginação humana como uma terra de encantamento.

Apesar de o mago percorrer o fio da espada, a faculdade do livre-arbítrio sempre fora a condição de desejo de escolher entre caminhar na retidão ou nas sombras. Já que as pessoas, nessa faixa de mundo, passaram a exercer tal faculdade, começaram impor os seus desejos aos seres espirituais; e o resultado dessa imposição criou o imaginário de As mil e uma noites, Simbad, tapetes voadores e outros.

Absurdo ou não, há histórias contadas nessas regiões de que pessoas recorriam às cobras de máscaras humanas em busca de curas milagrosas e adivinhação, bem como há relatos de garrafas de latão seladas com rolhas de chumbo que uma vez retirada uma das rolhas, emergia uma fumaça azulada que se transformava rapidamente numa forma humana. Dizem, nessas regiões, que nessas garrafas o Sábio Rei Salomão aprisionara os Jinn, ou gênios. Assim como também dizem que Salomão os usou para construir o Templo de Deus. Com a mesma intenção de colocá-los a serviço, mas de modo egoísta e traiçoeiro, certos magisters os utilizaram para benefício próprio.

Enquanto as operações mágicas aumentavam no imaginário popular, o charlatanismo, de fato, era uma força real. A figura mais importante e representativa é Simão, o mago, e o mesmo foi hostilizado e desmascarado pelo apóstolo Pedro a quem denunciou querer realizar milagres para obtenção financeira.

Simão dizia ser mago e chegou a percorrer muitos lugares, acompanhado de uma bela mulher chamada Helena, a quem dizia ser a reencarnação de Helena de Tróia, e parte do seu poder de mago se atribuía à magia sexual que ele praticava com ela. O seu poder mágico incluía saber voar, tornar-se invisível, curar doentes, ressuscitar os mortos e fazer estátuas ganharem vida e falar. Dizia-se que ele comandava legiões de demônios.

Passado alguns anos, quando seus poderes e sua fama pareciam desaparecer, permitiu-se ser enterrado vivo por três dias, com a promessa de que ressuscitaria dos mortos. As pessoas se reuniram para testemunhar o fato, porém ouviram apenas os gritos do mago que ecoavam do inferno. Sobre o túmulo de Simão, o papa Paulo I construiu uma igreja.

A ascensão e disseminação do cristianismo foram a grande responsável de banir as noções e ideias de transmissão de segredos e de magias da antiguidade, fortalecendo a fé e prática dos milagres. A sobrevivência desta tradição encontrou refúgio no mundo árabe, mesmo exercendo um lado de desejos negativos, conseguiu preservar um misticismo que ao mesmo tempo ajudou a criar uma identidade mística que influenciaria tanto um catolicismo místico ortodoxo quanto o nascente islã e, mais tarde, com a ocupação moura, não demoraria a retornar à Europa.

Se tiver curiosidade, leia sobre a ordem dos assassinos no mundo árabe

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Reflexão rápida sobre o Arcano I

Mago

 

Lâmina O Mago I do antigo tarô de Marselha

 

 Por João Fábio Braga

O Mago representa o ser, o espírito, o homem ou Deus; o espírito que se pode compreender; a unidade geradora dos números, a substância primordial. Ponto de partida. Causa primeira. A coisa. O infinito.

Num sentido mais geral, o Mago pode ser considerado símbolo da atividade originária e do poder criador existente no homem, ou o primeiro passo iniciático/espiritual, a vontade básica no caminho para a sabedoria, a matéria primordial dos alquimistas.

No entanto, e também, a queda do homem faz do Mago se identificar com a materialidade do ser criado, até o demiurgo e o ser criado tornam-se o mesmo: a identidade é produto da experiência pessoal, isto é, o homem é resultado das suas ações / homem é a medida de todas as coisas.

A mesma impulsão que o homem cria, é capaz de devotar seu aprendizado e desejo iniciático ao Creador. É essa relação que podemos interpretar a supressão da quarta perna da mesa como representativa do ternário humano no mundo (espírito-psique-corpo).

O dinamismo que se apresenta no arcano I demonstra o seu caráter intermediário entre o sensível e o virtual, atributo equivalente ao simbolismo de mercúrio, ou na tradição grega, Hermes – o mensageiro, mediador, intérprete – carrega o caduceu e o capacete alado da divindade que, por analogia, correspondem à vareta e ao chapéu do Arcano.

O Mago somos nós, todos, que buscamos ou não. O caminho sabemos e não podemos nos dispersar dele, mesmo tendo a consciência que não é necessário fugir do mundo para realizá-lo; porém vai do livre arbítrio para permanecer nele ou não.

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O Número do Homem

A Criação de Adão
A Criação de Adão é um afresco de 280 cm x 570 cm, pintado por Miguel Angelo Buonarotti(Michelangelo) por volta de 1511, que fica no teto da Capela Sistina. A cena representa um episódio do Livro do Gênesis no qual Deus cria o primeiro homem: Adão.

Por João Fábio Braga

A letra ו é a sexta letra do אב, com o valor numérico de seis. O significado da palavra ו é “gancho” de conexão usada quando o Tabernáculo (tenda) foi montado. O ו é a força de conexão com D’us; o Divino “gancho” que une o céus e a terra.

Uma vez que ו representa o número seis, corresponde-se com o número do homem na tradição judaica. O homem foi criado no sexto dia; o homem trabalha durante seis dias. A letra ו possui uma cabeça semelhante à letra י (mergulhada no mistério do Altíssimo). Ela representa o homem, com os pés na terra, sem se deixar de se voltar aos mistérios divinos.

Analogamente, o ו é a consciência humana, percorrendo o plano material ao espiritual; “puxa” para o alto aos níveis mais elevados da alma. Na Árvore da Vida, a letra ו se encontra no 16° caminho entre Hokhmah – Hesed que representa o percurso à Sabedoria, ao Eterno e ao Paraíso preparado para os justos.

Diante disso, é preciso observar,  o ו se compõe das quatro letras sagradas (YHVH) que,  como parte dos quatro mundos correspondentes às seis sefirot da Árvore da Vida, de Hesed a Yosod, conhecida como Yetsirah,  se relaciona numa das divisões da alma, Ruach que é a alma divina. No hebraico, o ו é o número do Homem e, por ventura, está relacionado à estrela flamígera, conectado à Árvore da Vida. Assim como “o que está em cima é como o que está em baixo”, é obrigação do Homem compreender todas as buscas, entender e compreender todas as leis da natureza que o circundam. No homem está representado microcosmicamente à toda realidade do macrocosmo, permitindo afirmar a máxima: D’us está no Homem.

Segundo “um mago de 5 mil anos”, “a alma do homem, em suas profundezas, pode ser considerada similar a uma parte de D’us. (…) justamente por isso, a alma humana possui o duplo poder de Querer e Criar”, – afirma – o homem, como agente em potencial, é “parte da Vontade Divina”, – continua – “O poder criativo do homem, igualmente, é derivado do mesmo Poder Divino”.

Nessa mesma concepçao, afirma Shimon Halevi – “o homem traz dentro de si não apenas as características do Criador, como também os Atributos do Criador. Através da Natureza inerente à sua composição, um indivíduo tem, portanto, acesso aos recursos cósmicos, e, se o desejar, a possibilidade, enquanto ainda preso à Terra, de contato com o Divino dentro de si mesmo”.

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Harmonia do homem com Deus na concepção de Pitágoras

pitagoras1Por João Fábio Braga

A musicalidade nas relações sociais, no sentido do sagrado, vem desde os primórdios da humanidade. A música sempre foi um meio de congregar harmonicamente uma comunidade num elo de magia e de mistérios na religação do homem com o Deus.

Os gregos consideravam a harmonia e alma como similares na natureza, porque todas as almas são harmônicas. É nesse nível que podemos entender de forma ampla que o espírito é o som que expressa a consciência numa sintonia perfeita com a manifestação de Deus dentro da sua Criação.

Nesse sentido, a influência da Escola Pitagórica, [conhecida como Irmandade Pitágorica][i], não está somente no conjunto de números simples e de ilustrações visíveis e inteligíveis de geometria e de matemática, mas sobretudo na concepção dos números como expressão concreta e única do real, pois vivia nessas disciplinas a alma invisível, pressuposto fundamental para se compreender o universo inteiro, entrelaçado (i)material, baseado na harmonia dos números. Segundo essa escola, as manifestações da realidade são numéricas, pois elas são a essência primordial de todo o universo físico.

Pitágoras usava a música para fortalecer a união entre os seus discípulos, por entender que a música instruia e purificava a mente. Em sua Escola, a música era entendida como disciplina moral por atuar como freio aos ímpetos agressivos dos seres humanos[ii]. Ele utilizava a música para educar os seus discípulos, ensinando-os apreciar a beleza dos sons e das composições da mesma forma com que apreciavam as belíssimas formas geométricas e fórmulas matemáticas.

É nesse grau de instrução, Pitágoras percebeu que através da música as paixões materiais se tranquilizavam e o espírito tornava-se apto a alcançar a harmonia presente ao redor, em todo o Universo e de elo com o Divino. O Sol e os planetas[iii] dão origem a uma melodia cósmica enquanto se movimentam pelo espaço. Cada planeta produz uma nota musical específica e esta orquestra celestial mantém a harmonia das esferas com perfeição divina.

Naquele período já era conhecido as constelações Zodiacais, elas expressavam a compreensão dos ciclos harmônicos do Cosmo[iv], de ordem, organização e perfeição. Segundo Pitágoras, o homem comum não teria a capacidade de ouvir essa sinfonia, até porquê nasce e vive em um corpo material que, geralmente, não está desperto o suficiente para poder apreciar tamanha beleza harmônica.

Dentro do limite, extensão e profundidade do intelecto do homem pitagórico diante do Criador, a harmonia musical amalgamada aos números e à todas as coisas, consistiria o princípio que instaura o múltiplo, mas mantém a unidade e a ordem universal. Ou seja, corpo e alma coexistem à medida que a consciência da religação sagrada se processa místico-filosoficamente ao interior, mas somente a alma é imortal, sendo extensão da divindade reintegradora.

E para isso eram necessários, os iniciados a aprimorarem o conhecimento e a experiência mística através da razão e da prática meditativa, com proposito de elevar as virtudes e purificar a alma.

 

 

[i] […] destaque meu. A Irmandade Pitagórica atraía um público diversificado e atingia todos os membros da sociedade, sem nenhum tipo de preconceito. Para fazer parte era apenas exigido determinação e vontade de viver em prol do conhecimento e da purificação do espírito. Essa escola foi a primeira a aceitar mulheres nas mesmas condições da dos homens.
[ii] GOULART, Jaques – Uma Loja Simbólica REAA
[iii] “Afirma Aristóteles que Pitágoras ensinava que a terra girava ao redor do sol, o ‘fogo central’ do nosso sistema, recebendo claridade desse foco, assim como todos os seres que não possuam luz própria recebem a luz de um ser autoluminoso. (Rohden, Huberto. O Pensamento Filosófico da Antiguidade: o drama milenar do homem em busca da Verdade integral, vol.1. Ed. Alvorada, São Paulo.
[iv] O termo µ (kósmos), o Universo era regido por ordem númerica/geométrica. O Cosmo significa ‘ordem’, ‘organização’, ‘beleza’, ‘harmonia’, ou seja, é a totalidade da estrutura universal, incluindo o macro e o micro. […], segundo os pitágoricos, somente a matemática poderia oferecer ferramentas seguras para o estudo das realidades cósmicas e esse foi o grande interesse que aproximou os pitágoricos dos modernos estudiosos.
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Darwin e o Ciclo da Vida

criacionismo

Por João Fábio Braga

Karl Marx cogitou dedicar sua obra “O Capital” a Charles Darwin (1809 – 1882), simplesmente por causa da influência e inspiração que a teoria da seleção natural despertara, de forma comparativa, sobre a teoria de classe e a exploração do homem pelo homem; porém o naturalista-biólogo recusou tal homenagem.

Na mesma direção, Engels, companheiro de Marx, esboçara o artigo intitulado “Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, no qual demonstra a forte extensão do evolucionismo biológico para explicar a adaptação dos nossos ancestrais ao habitat, devido circunstâncias particulares e extraordinárias, cujo trabalho, segundo o autor, é o elemento decisivo de transformação cognitiva, perceptiva e substantiva na evolução da espécie humana.

Apesar das referências e citações em torno do conteúdo científico publicado por Charles Darwin em 1859, a obra Origem das Espécies, desde sua época, ainda causa alvoroço e polémica, especialmente entre os fundamentalistas religiosos..

Isto porque nenhuma teoria acarretou tanta hostilidade por parte da opinião pública da sua época tanto como atualmente. Os tremores ainda permanecem: de um lado, àqueles que defendem a origem dos seres vivos, exclusivamente o ser humano, às causas divinas e as mesmas designaram conjuntamente a criação, conhecidos como os criacionistas (essa corrente religiosa defende que os homens conviveram juntamente com os dinossauros e o dilúvio bíblico os destruiram); por outro lado, do ponto de vista da ciência, os evolucionistas provam de que a origem das espécies vivas tem uma particularidade(s) comum(s), isto é, de um ancestral comum.

Diferente da abordagem religiosa, o processo de seleção natural ativa o princípio de criacionismo2sobrevivência através da adaptação e especialização dos seres vivos, especificamente nas características favoráveis que são hereditárias, tornando-as comuns em gerações sucessivas de uma população de organismos que se reproduzem; tais características hereditárias desfavoráveis se tornam menos comuns.

Nesse sentido, as características comuns resultam de adaptações em nichos ecológicos particulares, ou seja, o modo de vida no habitat condiciona o ecossistema que, à prova disso, segundo a teoria, decorre da emergência de novas espécies ou evolução destas.

Esta denotação científica da evolução das espécies, que teve repercussão diretamente sobre a origem humana, retirou o homem do centro do universo e o desmistificou da imagem da criação divina, deslocando a própria espécie humana num patamar comum ou igual à milhões e milhões de outras espécies.

Por causa disto, essas ideias provocaram, além da contestação, uma revolução no campo da medicina e biotecnologia, sobretudo a genética que, por sua vez, acrescentou uma nova abordagem a teoria da seleção natural; confirma a veracidade e comprovação da teoria: o grande exemplo tomado é da adaptação e da resistência dos mutantes organismos invisíveis como vírus e bactérias.

De modo etnocêntrico, a evolução das espécies, sua forte influência, prevaleceu (ainda hoje presente) no imaginário social da sociedade moderna que sempre se comparou superior às outras sociedades. Seu peso não deixou de se notar nas correntes pseudocientíficas do “darwnismo social” que vieram justificar ideias de evolução e sobrevivência do mais forte sobre sociedades e nações; até mesmo ideias associadas ao racismo, ao neoconialismo e ao imperialismo calharam como um axioma infundável ao empirismo biológico de Darwin.

Portanto, a discussão sobre a origem da vida e como a natureza atua com regularidade nas espécies é complexa e ao mesmo tempo fascinante. Sem dúvida alguma, Darwin demonstrou um conhecimento que trouxe a compreensão da harmonia de como verdadeiramente funciona a vida, uma corrida diária pela sobrevivência, sendo cotidianamente brutal e a morte como fundamental para renovação constante da biodiversidade do planeta.

Darwin estava certo!

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