Darwin e o Ciclo da Vida

criacionismo

Por João Fábio Braga

Karl Marx cogitou dedicar sua obra “O Capital” a Charles Darwin (1809 – 1882), simplesmente por causa da influência e inspiração que a teoria da seleção natural despertara, de forma comparativa, sobre a teoria de classe e a exploração do homem pelo homem; porém o naturalista-biólogo recusou tal homenagem.

Na mesma direção, Engels, companheiro de Marx, esboçara o artigo intitulado “Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, no qual demonstra a forte extensão do evolucionismo biológico para explicar a adaptação dos nossos ancestrais ao habitat, devido circunstâncias particulares e extraordinárias, cujo trabalho, segundo o autor, é o elemento decisivo de transformação cognitiva, perceptiva e substantiva na evolução da espécie humana.

Apesar das referências e citações em torno do conteúdo científico publicado por Charles Darwin em 1859, a obra Origem das Espécies, desde sua época, ainda causa alvoroço e polémica, especialmente entre os fundamentalistas religiosos..

Isto porque nenhuma teoria acarretou tanta hostilidade por parte da opinião pública da sua época tanto como atualmente. Os tremores ainda permanecem: de um lado, àqueles que defendem a origem dos seres vivos, exclusivamente o ser humano, às causas divinas e as mesmas designaram conjuntamente a criação, conhecidos como os criacionistas (essa corrente religiosa defende que os homens conviveram juntamente com os dinossauros e o dilúvio bíblico os destruiram); por outro lado, do ponto de vista da ciência, os evolucionistas provam de que a origem das espécies vivas tem uma particularidade(s) comum(s), isto é, de um ancestral comum.

Diferente da abordagem religiosa, o processo de seleção natural ativa o princípio de criacionismo2sobrevivência através da adaptação e especialização dos seres vivos, especificamente nas características favoráveis que são hereditárias, tornando-as comuns em gerações sucessivas de uma população de organismos que se reproduzem; tais características hereditárias desfavoráveis se tornam menos comuns.

Nesse sentido, as características comuns resultam de adaptações em nichos ecológicos particulares, ou seja, o modo de vida no habitat condiciona o ecossistema que, à prova disso, segundo a teoria, decorre da emergência de novas espécies ou evolução destas.

Esta denotação científica da evolução das espécies, que teve repercussão diretamente sobre a origem humana, retirou o homem do centro do universo e o desmistificou da imagem da criação divina, deslocando a própria espécie humana num patamar comum ou igual à milhões e milhões de outras espécies.

Por causa disto, essas ideias provocaram, além da contestação, uma revolução no campo da medicina e biotecnologia, sobretudo a genética que, por sua vez, acrescentou uma nova abordagem a teoria da seleção natural; confirma a veracidade e comprovação da teoria: o grande exemplo tomado é da adaptação e da resistência dos mutantes organismos invisíveis como vírus e bactérias.

De modo etnocêntrico, a evolução das espécies, sua forte influência, prevaleceu (ainda hoje presente) no imaginário social da sociedade moderna que sempre se comparou superior às outras sociedades. Seu peso não deixou de se notar nas correntes pseudocientíficas do “darwnismo social” que vieram justificar ideias de evolução e sobrevivência do mais forte sobre sociedades e nações; até mesmo ideias associadas ao racismo, ao neoconialismo e ao imperialismo calharam como um axioma infundável ao empirismo biológico de Darwin.

Portanto, a discussão sobre a origem da vida e como a natureza atua com regularidade nas espécies é complexa e ao mesmo tempo fascinante. Sem dúvida alguma, Darwin demonstrou um conhecimento que trouxe a compreensão da harmonia de como verdadeiramente funciona a vida, uma corrida diária pela sobrevivência, sendo cotidianamente brutal e a morte como fundamental para renovação constante da biodiversidade do planeta.

Darwin estava certo!

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“São Crianças como Você!”

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Renato Russo

renato_caricatura

Por João Fábio Braga

Poucos artistas conseguiram comover de forma generalizada um público juvenil. A morte de Renato Russo, no dia 11 de outubro de 1996, de maneira prematura, sepultou a genialidade, o lirismo e a crítica do Rock brasileiro. Reedito este artigo, com pouquíssimas alterações, que foi publicado neste blog em 2009. Fica minha homenagem àquele que marcou sinceramente as mente e corações de milhares de legionários como eu – Urbana Legio Omnia Vincit!

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A banda Legião Urbana é, senão, a maior banda brasileira de rock de todos os tempos. Um símbolo de inspiração e protesto que marcou profundamente os corações e mentes de uma geração, e teve como o seu ícone e front leader Renato Russo, poeta e cantor, assim como ele, estavam vivendo um momento crucial da história brasileira e das possíveis mudanças e “expectativas” sociais e políticas pós-ditadura.

Tal análise é uma reflexão acerca do primeiro período da banda, sobretudo das obras musicais, sob a ótica do argumento do líder da banda, que têm ligação diretamente com a realidade social e histórica do contexto brasileiro – final da ditadura militar, movimento das Diretas Já e redemocratização do país. É no palco deste cenário, na capital do poder federal, uma rebeldia surge (não é somente numa localidade que surge tais movimentos musicais de rock, o cenário é propício para a subversão em todo país), mudando para sempre a música brasileira.

Entre o lirismo e a rebeldia, o tédio e a capital Brasília – são expressões que inspiraram legiao_urbanaum grupo de adolescentes de classe média na cidade principal do cenário político nacional, conhecido como a turma da colina. No entanto, Renato Manfredini Jr. era o mais irreverente de todos e detinha de um arcabouço cultural e musical invejável entre a turma. O pano de fundo desta turma estava ancorado num movimento musical original e anárquico: o Punk. O estilo musical pregava a radicalidade ao extremo contra os falsos modismos e uma dose crua de protesto político. Em 1977, essa foi a fúria fórmula encontrada pela primeira banda de punk da capital, liderada pelo rebelde Renato, o Aborto Elétrico.

Mas depois de 4 anos, a banda Aborto Elétrico se desfez, tal ruptura nasceram as Bandas Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Dali em diante, Renato Manfredini Jr. transformara-se em Renato Russo, sobrenome artístico adotado devido aos seus filósofos favoritos, o francês Jean-jacques Rousseau (1712 – 1778), o inglês Bertrand Russell (1872 – 1970) e outra fonte de admiração o pintor francês primitivista Henri Rousseau (1844 – 1910). Para além do voraz leitor que era, era também um aguçado devorador de música, herdara daí à influência que compunha sua personalidade uma mistura de Baudelaire com Sid Vicious (integrante da banda inglesa Sex Pistols, pioneira da cultura punk, na década de 70).

Em 1985, sai o primeiro álbum com o nome da banda, “Legião urbana”, com um tom pintado de punk e carregado de protesto; começou a partir desta obra a preocupação do compositor sobre a juventude em que fazia parte, principalmente sobre o cenário de redemocratização que representavam a esperança e luz de tempos melhores, longe da escuridão de 20 anos de ditadura militar. Mesmo dentro daquele contexto, Renato Russo expressava sua desconfiança sobre o futuro do Brasil que se delineava a partir dali, como bem citou e cantou na música de abertura do álbum -“será só imaginação? (…) será que vamos conseguir vencer? (…) ou será que vamos ter que responder pelos erros a mais”; assim como “Petróleo do Futuro” que aborda o descaso das autoridades com a juventude do país; na música “Reggae”, a característica marcante é a ideia da falência do sistema educacional; deste modo, “Perdidos no espaço” exibe também a confusão do mundo das drogas; e “Baader-meinhof blues” mostra a violência gratuita transmitida pela mídia.

Em 1986, é lançado o álbum “Dois”, que para muitos a melhor obra musical do grupo e do amadurecimento estético, lírico e introspectivo, distinto do primeiro de ardência punk. Esta obra mostra um Renato Russo mais sofisticado, tanto no aprimoramento sonoro quanto no lirismo que soa de maneira universal; mais recluso numa esfera privada, primando pelas dúvidas do conflito existencial da juventude no cotidiano sobre sexualidade, amor, paixão, futuro e, ao mesmo tempo, buscando respostas à solidão, dentro de um processo de construção pós-moderna e perante às incertezas da democracia e da globalização que se enunciava no país.

violaoNuma das faixas deste álbum, Renato Russo apresenta “Tempo Perdido” como uma canção que expressa o desejo de mudanças profundas, mas, porém, revela o despreparo e insegurança para o novo período da história – o esgotamento do socialismo real e o processo em andamento da abertura econômica ao neoliberalismo no país, como bem colocou nesses versos: “Todos os dias quando acordo/ Não tenho mais o tempo que passou/ Mas tenho muito tempo/ Temos todo o tempo do mundo. (…) Não temos tempo a perder/ Veja o sol dessa manhã tão cinza/ A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos (…) Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora/ O que foi escondido é o que se escondeu/ E o que foi prometido, ninguém prometeu.” – mas o autor tem um certo otimismo na certeza de dar atenção à juventude como agente para as verdadeiras transformações sociais, citada no último verso – “Nem foi tempo perdido/ somos tão jovens”.

No entanto, Renato Russo numa das músicas se manifesta declaradamente simpatizante do socialismo (ou quem sabe estava fazendo alusão às organizações políticas que defendiam os trabalhadores e sonhavam chegar ao poder), quando a letra “Fábrica” faz uma crítica aos detentores do capital e a desigualdade social, como também anuncia utopicamente uma sociedade mais justa, sem exploração do homem pelo homem: “Nosso dia vai chegar/ Teremos nossa vez/ Não é pedir demais: quero justiça/ Quero trabalhar em paz/ Não é muito o que eu lhe peço/ Eu quero trabalho honesto/ Em vez de escravidão / Deve haver algum lugar/ Onde o mais forte não consegue escravizar/ Quem não tem chance/ De onde vem a indiferença?/ Temperada a ferro e fogo/ Quem guarda os portões da fábrica?”

Numa outra estrofe, Renato revela sua inquietação acerca das conseqüências surgidas a partir da revolução industrial, sobretudo de intervenção e manipulação da natureza, em nome do progresso desenfreado e da devoção às mercadorias, causado mal à humanidade; ele expõe um pessimismo messiânico e caótico ao conformismo que não se resta mais nada a fazer diante da ecodestruição ambiental e humana: “O céu já foi azul, mas agora é cinza/ E o que era verde aqui já não existe mais. / Quem me dera acreditar/ Que não acontece nada de tanto brincar com fogo/ Que venha o fogo então/ Este ar deixou minha vista cansada, / Nada demais.”

Em 1987, sai o álbum “Que país é este?”, uma ontologia de músicas do Aborto Elétrico e Trovador solitário da época de adolescente em Brasília. Mas esta obra continha elementos críticos que alfinetavam diretamente os políticos e especialmente o congresso nacional, ainda que nas ruas o coro gritante por eleições diretas era cada vez mais vibrante. A canção “Que país é este?” se tornou o hino de protesto dos jovens para criticar principalmente o presidente Sarney e a corrupção na esfera pública: “Nas favelas, no senado/ Sujeira prá todo lado/ Ninguém respeita a constituição/ Mas todos acreditam no futuro da nação (…) Mas o Brasil vai ficar rico/ Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”.

E n’outro verso de outra música, Renato Russo lamenta sobre a calamidade pública da saúde e o descaso nacional com seus cidadãos: “e agora você quer um retrato do país?/ Mas queimaram o filme/ E enquanto isto na enfermaria/ Todos os doentes estão cantando sucessos populares (e todos os índios foram mortos)”.

Naquela altura, Renato Russo tinha consciência que se tornara o porta-voz da juventude, algo que o incomodava, mas sabia da responsabilidade social do artista, realmente não sabia como lhe dar com tudo isso. Até que no dia 18 de junho, num sábado de 1988, o que era para ser a volta triunfal da Legião Urbana à cidade de Brasília, o Estádio Mané Garricha vivenciou o pesadelo de uma multidão enfurecida; a confusão se alastrou no estádio, onde 385 pessoas foram atendidas no serviço médico, 60 pessoas detidas pela PM, 64 ônibus depredados e 10 milhões de cruzados de prejuízos ao estádio.

Esse é sem dúvida, um dos eventos que marcaram profundamente a sua carreira a ponto de influenciá-lo musicalmente. Outros momentos marcantes para Renato Russo foram o nascimento do seu filho, e no mesmo ano de 1989, a descoberta que era portador do HIV. Ano também de muitas esperanças, a eleição para presidente.

legioDiante das adversidades pessoais, é lançado em 1989, “As quatro estações”, uma obra que marca o início da nova fase da banda e uma nova estação para o cantor, que segundo ele afirmou estaria cansado de criar músicas para salvar o mundo e queria cantar músicas de amor, com temas mais espirituais e menos materiais: “tudo é dor/ e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor (Buda); Meu amor/ disciplina é liberdade/ compaixão é fortaleza/ ter bondade é ter coragem (Tao-Te-Ching, de Lao-tsé); Ainda que eu falasse a língua do homens/ e falasse a língua do anjos/ sem amor eu nada seria (São Paulo aos coríntios); O amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer (Luís de Camões); Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo/ tende piedade de nós/ daí-nos a paz (Jesus Cristo)”.

Neste álbum, assim como nos outros anteriores, mostra ainda a preocupação de Renato Russo com a juventude, mas de modo diferencial porque agora ele era pai. Tal reflexão do que iria escrever e o próprio tratamento contra a dependência do álcool pesava em sua consciência sobre o que poderia pensar seu filho quando tivesse maior, pois queria dá-lhe o melhor de si. Com isso, percebia com otimismo, chegando alegar em letra: “o Brasil é o país do futuro/(…) eu quero tudo para cima” ou mesmo cantava a música Pais&filhos“você culpa seus pais por tudo/ e isso é absurdo/ são crianças como você/ O que você vai ser, quando você crescer?”

As obras musicais da Legião Urbana não param por aqui; elas são extremamente vastas, impossível abordá-las por completas neste espaço virtual. A poesia de Renato Russo se eternizou como bem imaterial da cultura brasileira; símbolo de uma geração de muitas perspectivas, anseios e afinidades com as transformações socioeconômicas e políticas, nas quais as letras não perderam os seus sentidos propriamente ditos e compreendidos no contexto atual.

Portanto, fica a homenagem e o sentimento da falta deste ilustre brasileiro, assim como João de Santo Cristo que foi para Brasília com a finalidade de “falar com o presidente prá ajudar toda essa gente que só faz sofrer…”

Força Sempre!

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A Ficção Científica como Retrato do Mundo

Hal

Um dos diálogos mais fomosos do cinema: (…) “HAL: Eu sei que você e Frank estavam planejando desligar-me, e isso é algo que não posso permitir que aconteça. Dave Bowman: Onde diabos você tirou essa idéia, HAL?”

Por João Fábio Braga

O retrato do mundo, segundo Heidegger, é a manifestação ontológica da própria técnica no mundo, sobretudo quando pessoas são indexadas sistemicamente a produzirem e reproduzirem a objetividade tecnológica. Nessa concepção, a ficção científica é o simulacro do futuro (mais que presente) da humanidade; expõe as contradições oriundas da relação homem-máquina no seu próprio meio artificial.

O movimento da literatura moderna da ficção científica surgiu ao final do século XIX, como expressão e demonstração das transformações do cotidiano por meio das máquinas, também um meio de divulgação ou promoção generalizada do mercado tecnológico. São através das tecnologias óticas, que as tecnologias culturais como a ficção científica ganham dimensões relevantes, especialmente na relação com a realidade simulada entre os monitores de computadores conectados. Entre a ficção e a realidade, as principais diferenças são o grau de integração entre os sistemas, assim como a velocidade com a qual ocorrem cálculos e interações.

Segundo Hillis, a expressão “identidade terminal”, que se refere ao desapego dos vínculos face a face, permitiu o nascimento de nova subjetividade na interface entre o corpo e a TV ou ao monitor do computador; considera crescente a interiorização de conceitos de self na tecnologia. A realidade é cada vez mais constante, imediatista, criando teias de subjetividades hiper-individualizadas nas tecnologias virtuais, resultadas das espacializadas distâncias entre a humanidade corporificada e as máquinas eletrônicas, facilitando uma interpenetração de subjetividade e fluxos globais de conteúdo e de capital.

Nesse sentido, a ficção científica encoraja a crença de que a tecnologia daria à humanidade um espaço envolvente alternativo à nossa existência corporificada. O filme 2001: uma odisséia no espaço narra essa ideia, esse desejo de interação via tecnologia do homem com a cibernética, com o qual se relaciona ou se intermedeia. Na artificialidade da relação do astronauta Dave com o computador HAL está expressa por um lado, a ideia de uma máquina programada a ser inteligente e segura, e do outro, a perda de controle da criatura. A sensação descorporificada que escapa o corpo é experimentada, pois faz sentido quando se transfere para dentro do espaço digital da rede de tecnologias interativas.

Essa amálgama tecnológica, entre ficção científica e realidade virtual, Pierre Levy neuromancerdenominará de ciberespaço. O ciberespaço é a estrutura virtual que ambienta o suporte material de reprodução da vida social e fluxos interativos. A expressão “ciberespaço”, originado da ficção científica Neuromancer (1984), de Willian Gibson, permite fazer alusão ao “retrato do mundo” de Heidegger.

No plano visionário, o ciberespaço de Gibson esboça uma terrível sociedade, acometida por uma “alucinação consensual” da qual se chama de “Matrix”: esta organização virtual que reina em ambiente mórbido, controlador e totalitário. Em comparação com Utopia de Thomas More, concebe-se essa literatura o modo de vida perfeito, sem conflitos sociais. A própria palavra utopia que em grego significa “em lugar nenhum”; a referência cabe à ficção do ciberespaço, onde a concepção de lugar é anulada por não existir em universo físico.

Entretanto, a representação técnica da vida como ficção científica, enquanto representação do imaginário social, tecido em rede de fluxos como o ciberespaço, demonstra na realidade a reprodução dos aspectos das relações sociais intermediadas e intensificadas em desigualdades entre os seres humanos, humanos e máquinas.

A realidade virtual da ficção científica é atualização do cotidiano contemporâneo que se confunde em rede, próprio destes tempos, em ligações entre realismo científico, realismo mágico, seres transcendentais, relações sociais, atuação humana e ambientes virtuais. O imaginário virtual transcende, enquanto desejo de passagem para o estado onírico, uma das principais forças motrizes desta tecnologia, porque levanta a questão de as pessoas usarem o ciberespaço não apenas para deslocar-se de seus corpos, mas também de suas mentes.

 

Referências:
LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2a. ed., 2004.
HILLIS, Ken. Sensações Digitais. São Leopoldo: Editora UNISSINOS. 2003

 

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Ensaio sobre a simbologia do Galo

O senhor se voltou e olhou para Pedro; este recordou o que lhe havia tido o Senhor: “Antes que o galo cante, me negará três vezes”. (São Lucas, 22:61).

© Aslan Topcu – Fotolia.com

© Aslan Topcu – Fotolia.com

Por João Fábio Braga

O símbolo do Galo aparece em muitas tradições religiosas e iniciáticas. Nas culturas antigas e herméticas, ele aparece como uma criatura celestial e anuncia a ressurreição solar. A sua simbologia está associada à moralidade e à consciência de vigília, e também com a morte e a ressurreição.

O estudo dos símbolos requer uma profunda análise comparativa tanto de estruturas analógicas cientificamente utilizadas quanto analogias iniciaticamente usadas para se compreender os mistérios. Segundo o psicanalista Carl Jung, o conceito de arquétipo[1] está relacionado à estruturas que servem de matriz para a expressão e desenvolvimento da psique. O arquétipo é uma espécie de imagem apriorística[2] que está ligada profundamente no inconsciente coletivo[3] da humanidade, projetando-se imagens primordiais em diversos aspectos da vida humana, ou seja, imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos.

As imagens primordiais, outro nome para arquétipos, surgem da constante repetição de uma mesma experiência durante gerações. Eles são as tendências estruturantes e invisíveis dos símbolos; criam imagens ou visões que balanceiam alguns aspectos da atitude consciente dos sujeitos. Em outras palavras, esses arquétipos se associam ao amor fraternal, o ritual do casamento, o medo do escuro, a crença de que o movimento dos astros no céu influencia a vida na terra, o respeito para com os mortos, a crença na existência de seres sobrenaturais, etc.

Se é verdade que Jung elabora na sua psicologia analítica, o arquétipo do Galo, que estrutura o símbolo, encontra-se no inconsciente coletivo como unidade psíquica de muitas tradições religiosas e esotéricas. A mesma explicação sustenta afirmação de que os mitos e lendas serem muito similares e parecidos. O antropólogo Claude Lévi-Strauss afirmava que a função estrutural dos mitos é dá sentido a vida e pôr ordem no mundo, por isso dizia “os mitos conversam entre si”, é uma maneira lógica de compreender as contradições reais impossíveis de serem superadas. Segundo Papus[4], numa visão da tradição iniciática, compreende o símbolo como imagem material de um princípio a que um símbolo se liga analogicamente, ou seja, numa escala de correspondências analógicas que varia dos mais elevados aos mais inferiores. As correspondências e correlações dos símbolos se encontram nas mais remotas tradições, mitos, culturas e mistérios.

Galo2Considerando essas estruturas teóricas, o simbolismo do Galo tem inspiração nos cultos solares da antiguidade. O sol é símbolo universalmente adotado como divindade e está ligado as outras estruturas de significados: esperança, pureza e perfeição. Na tradição japonesa, a mitologia xintoísta divulgava a crença de que o canto do Galo era responsável para que o Sol brilhasse, caso contrário não nasceria. O sol é o ícone principal do país e ornamenta até hoje a bandeira japonesa. Até hoje existe um festival tradicional dedicado exclusivamente a ele.

Na tradição cristã, os cristãos adotaram o Galo como símbolo do arauto anunciador das boas novas. Não há dúvidas de que o cristianismo foi influenciado pelos cultos solares da antiguidade. Segundo uma tradição divulgada pelos cultos mitraístas, o galo cantou no momento do nascimento de Mitra[5]. Por essa razão, o mito viria a ser incorporado pelos Bispos de Roma, dando origem à conhecida Missa do Galo, realizada na passagem do dia 24 para o 25 de dezembro, marcando o nascimento de Jesus. Não há comprovação histórica de que Jesus tenha nascido nessa data, mas nessa data se comemorava o nascimento de Mitra, e foi adotado pela Igreja Romana para fundir os dois cultos, já que esse culto à esse deus persa era muito forte entre os romanos. As datas também correspondem o início do solstício de inverno (hemisfério norte) que os mitraístas costumavam celebrar o culto ao Deus Sol.

A simbologia mitraísta serviu para os propósitos cristãos, o nascimento de Jesus significava para o cristianismo surgimento de uma nova luz para o mundo, o renascimento da humanidade mergulhada na ignorância espiritual. Conta a lenda, em alusão à Missa do Galo, conhecida como a missa da luz, a única vez que o Galo cantou foi à meia-noite anunciando a natalidade do menino Jesus. Entre os católicos, o galo lembra a Penitência e São Pedro que negou Cristo antes do galo cantar três vezes. O galo também aparece em muitas torres de Igrejas. Os cristãos primitivos se reuniam ao primeiro canto do galo. Na antiguidade cristã, o canto do galo era ouvido com alegria durante a noite, pois espantava os supostos demônios, dissipando o terror da noite.

Na cultura dos povos africanos, o galo é visto como cooperador do deus Olurum. Ele foi numa missão à terra junto com o seu primogênito Obotala para organizar o caos primordial[6]. Os ciganos, por sua vez, enxergavam o galo como o anunciador do dia e da luz. Para os gregos, o galo simbolizava Alectrion[7], a sentinela celeste que avisava o mundo sobre a chegada do sol.

Galo3Alguns países adotam o galo como símbolos nacionais. França e Portugal são os países mais conhecidos. Para os franceses, ele representa a luz e a inteligência, pois está conectado com a ação de despertar. A palavra Gália, nome antigo do país, derivaria do gallus[8], palavra latina, significando galo. O símbolo do Galo desempenhou um papel importante na República Francesa. Desde 1848, o Galo aparece na cota de armas da República Francesa, em que a Liberdade está sentada num leme decorado com um galo.

Em Portugal, essa tradição está ligada com a lenda do galo de Barcelos. Conta a lenda, um habitante do burgo de Barcelos, sendo acusado de um crime, alegava inocência. Todos os indícios eram contra ele e o mesmo não tinha capacidade de se defender. Então ele viu um galo morto dentro de um cesto e disse ao juiz: “se esse galo cantar significa que eu sou inocente”. O galo cantou e ele foi absolvido. Era costume também nas aldeias portuguesas como a espanhola, as pessoas levarem o galo para a igreja para vê-lo cantar durante a missa. Caso cantasse, todos ficariam felizes, pois representava o prenúncio de boas colheitas.

Nas tradições esotéricas e iniciáticas, o galo é visto como símbolo da vigilância e da mente perpetuamente desperta. Na alquimia era usado para simbolizar o mercúrio filosófico, isto é, o princípio em que desperta a “alma para Grande Obra”, possibilitando sua transmutação e exaltando o princípio da pureza, da inteligência e da sabedoria. Na astrologia, o planeta mercúrio rege a expressão da verdade, pois é o enviado de Deus. Representa Apolo, deus do sol e simboliza a luz. No mesmo sentido, usando as correspondências e analogias, o Galo é o gerador da esperança, o anunciador da Ressurreição, pois o seu canto marca a hora sagrada do  alvorecer, ou seja, o triunfo da Luz sobre as Trevas. Na maçonaria, o Galo está associado à transformação do candidato profano ao iniciado; representando o alvorecer de sua nova existência, ou seja, simbolicamente o neófito morre como profano e renasce num plano de espiritualidade mais completo e elevado.

Portanto, o Galo é mais do que um arquétipo que fundamenta uma ordem moral e social. Ele é o símbolo da Verdade, da Vida e da Sabedoria; o galo é a própria Luz. O Galo é o arauto de si mesmo, no movimento constante de meditar e despertar a consciência, exercitando – a vigilância dos defeitos e dos erros; e a perseverança na busca do conhecimento e da verdade como norteadores no aprimoramento espiritual, intelectual, moral e social. Por essas razões, não deixe de alimentar o Galo.

[1] Um dos principais estudos de Jung se refere à simbologia. Ele entende de que o inconsciente se expressa primariamente por meio de símbolos. Os símbolos são a linguagem do inconsciente, que retrata, por analogias, aproximações e outras relações menos inteligíveis, conteúdo de uma determinada sensibilidade, que a mente racional ainda não consegue classificar. Os arquétipos são elementos estruturais formadores do inconsciente coletivo da humanidade e dão origem tanto às fantasias individuais quanto à mitologia de um povo em geral. Exemplos como Adão, Hércules, Cristo, Osíris, Prometeu, bem como duendes, magos e feiticeiros, todas as entidades do bem e do mal, são elementos comuns a toda a raça humana.
[2] A priori é o conhecimento ou justificação independente da experiência.
[3]Segundo o conceito de psicologia analítica criado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, é a camada mais profunda da psique. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados, e é nele que residem os traços funcionais, tais como imagens virtuais, que seriam comuns a todos os seres humanos. O inconsciente coletivo também tem sido compreendido como um arcabouço de arquétipos cujas influências se expandem para além da psique humana. Em outras palavras, a humanidade compartilha um inconsciente coletivo, ou seja, um conjunto de institutos culturais simbólicos, que se tornam estruturas psíquicas comuns a todos os grupos humanos, em todos os tempos.
[4] Gérard Anaclet Vincent Encausse (Corunha, Espanha, 13 de Julho de 1865 — Paris, França, 25 de Outubro de 1916), mais conhecido pelo pseudônimo de Papus, foi um médico, escritor, ocultista, rosacrucianista, cabalista e maçom
[5] Mitra é o deus da Luz, cuja função na sociedade humana é proteger a verdade e manter as pessoas afastadas da falsidade e do erro.
[6] Esse mito ainda é cultuado no candomblé brasileiro.
[7] Segundo narrativa grega Áries (Marte) passava as noites com Afrodite durante a ausência do esposo Hefaistes (Vulcano) e havia incumbido Alektraon de ficar vigiando a chegada do marido. Mas Alektraon dormiu e o marido surpreendeu os amantes. Áries para castigar o falso vigilante transformou em um galo. Alektraon que em grego antigo quer dizer galo, uma ave castigada a eterna vigilância.
[8] Esse era o nome pelo qual os romanos denominavam os habitantes da região, por causa do culto que os gauleses prestavam ao Pássaro da Manhã.
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O QUE É O HOMEM?

homem

Por João Fábio Braga

Na fachada do Templo de Delfos, o mais famoso santuário da antiguidade, estavam escritas as lapidares palavras Gnóth Seautón. Isto é: Conhece-te a ti mesmo. O homem nada pode saber das coisas existentes no macrocosmo circunjacente, enquanto não descobrir o microcosmo do seu próprio Eu. Não pode o homem conhecer o mundo ao seu redor ou acima, sem primeiro conhecer dentro de si.

A filosofia, desde os tempos antigos até ainda hoje, se depara numa bifurcação em torno do conceito de “homem”: uma é universal e outra é relativa. Contra a concepção universal de homem, estão aqueles que acreditam que o “homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras). Segundo esse pensamento, a realidade é real e individual ou real é individual, contraponto a ideia de realidade objetiva absoluta, ou seja, abstração da mente às definições absolutas de Verdade, Justiça ou Virtude.

Seguindo essa percepção sobre a realidade do “homem”, dizem os sofistas, a verdade é um produto humano, oriundo de sua atividade mental e dependente da sua realidade. Segundo esse argumento, toda realidade pensada é subjetiva, é transitória e dá a medida de seu valor. Em outras palavras, o relativismo sobre as coisas abre o precedente as ideias mudarem conforme as conveniências do momento, as circunstâncias e os próprios interesses.

Nesse sentido, a verdade deixa de ser livre ou soberana, torna-se escrava e servidora dos próprios interesses, reconhecendo na crença sobre algo um ponto de vista ou uma opinião. Essa maneira de pensar preocupa-se exclusivamente por questões mais práticas, contrárias as especulações filosóficas sobre a substância do cosmos, a origem de Deus e do homem, seu destino, etc.

homem2Distante dessa concepção está a ideia que só se pode conhecer quando se reconhece a própria ignorância (Sócrates). Este pensamento, oposto de que o individual é real e a verdade é relativa, admite que a realidade objetiva, chamada de “verdade”, não é a propriamente a verdade, mas um elemento indispensável para construção da Verdade. Quando o sujeito cognoscente não tem nenhuma ideia ou contato com o objeto cognoscente, isto é, a realidade, ele está num estado de completa ignorância, pois ele considera o real aquilo que não é real, logo o que é irreal é real, produzindo ou motivando um estado de erro ou de inverdades.

Sócrates acredita que a Verdade ou todos os atributos universais do homem consistem numa relação entre sujeito e realidade cognoscíveis. O sujeito como ser finito e o objeto enquanto ser infinito não podem ser contraditórios, porque o finito nunca poderá sobrepor ou ser integralmente o infinito, porém o sujeito que busca, nessa concepção, tem a possibilidade de um conhecimento progressivo que se aproxima do objeto infinito, mas nunca poderá chegar a um ponto que ultrapasse ou chegue num limite do infinito. Conforme essa afirmação, o homem é que busca ou descobre a Verdade, e não como a tese anterior prega como a verdade sendo feita, produzida ou manipulada.

Por essas questões expostas, Sócrates, assim como Platão acreditam na absoluta verdade que o homem é imortal, não na sua característica corpórea, transitória e individualizada na matéria, mas na Alma humana como essência do homem. Segundo esses pensadores, o autoconhecimento conduz a felicidade, pois é idêntica à essência da alma ou da ação harmônica da suprema Bondade. Ela é a manifestação da emanação da Realidade Absoluta, por isso a Alma humana é eterna como essência íntima e infinita.

homem_cosmoPor essas razões, Sócrates afirmou Conhece-te a ti mesmo, conhecerás o universo e os deuses. Segunda essa tradição, as ideias estão latentes no indivíduo, por isso a função dos sentidos corpóreos é despertar as ideias dormentes do interior da própria essência divina da alma. Embora os valores universais sejam eternos e potencialmente vivos, eles são atualizados no tempo.

Diante desta metafisica fundamental, todos os homens possuem a mesma essência divina. Se os homens possuem a mesma natureza ou essência, não haveria motivo real deles se odiarem ou guerrearem uns aos outros. A única razão porque o homem comum odeia os seus semelhantes é a ignorância da sua própria natureza, causador de todos os malhes da humanidade. Somente a virtude ética do amor universal que brota a sabedoria metafisica sobre a verdadeira natureza do homem é capaz de instruir os homens pelos caminhos da Verdade, da Justiça e da Fraternidade, combatendo a tirania, os preconceitos, as injustiças e os erros que tão depreciam as sociedades.

Referência Bibliográfica:
O Livro de Filosofia (colaboradores). São Paulo: Globo, 2011.
NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de Filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005.
ROHDEN, Huberto. O Pensamento Filosófico da Antiguidade, vol 1. São Paulo: Ed. Alvorada.
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A Sabedoria Sioux

Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Camões

Aguia_falcao

Na sociedade contemporânea, o Amor se tornou um valor perdido. Para disfarçarmos da solidão, aparelhamo-nos com iphones, tablets, notebooks, etc. O contato por intermédio das redes sociais tomou o lugar do contato íntimo, cuja principal marca é a ausência de comprometimento. Num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz; seja real ou virtual, não podemos nos esquecer de buscar e resgatar o Valor do Amor nas nossas relações humanas. Abaixo, reproduzo a estória que ilustra a busca deste Valor.

Para Refletir:

Conta uma velha lenda dos índios Sioux, que uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros, e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo:

– Nós nos amamos, e vamos nos casar – disse o jovem. E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã, alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos; que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer?

E o velho, emocionado, ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:

– Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada… Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte e trazê-lo aqui com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro Bravo – continuou o feiticeiro – deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva!

Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada. No dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco. O velho pediu que, com cuidado, tirassem-nas dos sacos e viu: eram verdadeiramente formosos exemplares.

– E agora o que faremos? Matamo-nas e depois bebemos a honra de seus sangues? – perguntou o jovem. – Ou as cozinhamos e depois comemos o valor das suas carnes? – Propôs a Jovem.

– Não! – disse o feiticeiro, – apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro; quando as tiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.

O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram voar, mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do voo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucarem.

E o velho disse: – Jamais esqueçam o que estão vendo; este é o meu conselho: vocês são como a águia e o falcão; se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados.

Moral da História

O amor é uma oportunidade que recebemos da vida para evoluirmos como ser humanos. Se acreditarmos que se trata de um sentimento com objetivo de apenas satisfazer o nosso ego, transformando o outro no escravo de nossos prazeres dionisíacos, terminaremos perdendo a chance de progredir e compreender na convivência e no aprendizado da pessoa amada a possibilidade de elevação da amizade, do companheirismo e da espiritualidade.

Portanto, a sabedoria Sioux nos ensina que os sentimentos verdadeiros só podem durar em liberdade, porque é somente quando aprendemos a nos tornar responsáveis por nossas próprias escolhas e atitudes que experimentamos, de fato, o Amor.

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A Essência das Coisas

Deixai vir a mim as crianças, porque delas é o Reino dos Céus. Jesus Cristo (Mt, 19: 14).

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Pequeno Príncipe. Antoine de Saint-Exupéry

pequeno principe

Por João Fábio Braga

Todos os dias os filhos pequenos surpreende nós pais. A surpresa se torna uma qualidade para os adultos quando percebe o nível de inteligência e sensibilidade das crianças. Nada se deixa passar por percebido, elas desafiam cada vez a nossa lógica.

Mas que lógica? O mundo atual é um mundo competitivo e selvagem; a racionalidade nos impõe um ritmo de trabalho e rotina do cotidiano que acabam enclausurando muitos adultos, sobretudo os pais. O modo de vida moderno pode cegar. O sintoma existe e muitos nem percebem as Virtudes dos pequenos e não sabem ou desconhecem o quanto se aprende com eles.

Na literatura infantil O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry nos ensina que os adultos jamais devem esquecer que um dia foram crianças. Essa seria a principal atitude que os pais e adultos devem preservar na lembrança contra a tirania da regularidade e arbitrariedade da racionalidade moderna.

As crianças são como filósofos. A primeira atitude do filósofo é se surpreender com a realidade em torno de si, a segunda são os questionamentos sobre a ordem das coisas. Essas são qualidades inerentes às crianças, elas não se limitam à consciência ordinária da vida moderna; são absolutamente seres extraordinários e nos induzem a uma realidade extraordinária.

Por isso as dúvidas são constantes, muitos “por quês” são ditos igual a um “bombardeio aéreo”. Porém as perguntas das crianças fazem dos pais e adultos a moverem o espírito engessado pelo materialismo das coisas às surpresas que estavam letárgicas no espirito humano. Sobre a essência das coisas, a raposa ensina um segredo muito simples ao pequeno príncipe: “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. A raposa nos lembra que muitos homens e mulheres esqueceram esta Verdade e não se importam de lembrar ou aprender.

O segredo da vida está guardado nesta relação: a sintonia de amor entre pais e filhos produz uma dialética de ensino-aprendizagem que ajudam nossos filhos a se desenvolverem com qualidade de vida e segurança, preparando-os físico, moral e intelectualmente para os desafios da vida futura.

Sendo assim apresento uma poesia Haicai, mas ao modo ocidental. Apesar de desconexa, perante a uma lógica poética clássica, poesia está carregada de sentimento sobre a realidade que se apresenta exuberante; construída pela experiência da descoberta; da verbalização dos sentidos e da existência. O autor da poesia é de uma criança de cinco anos, o meu filho!

“A comida desapareceu na minha boca”.
“Não quero o pôr do sol nos meus olhos”.
“O meu coração está quebrado de saudade”.
João Vinícius e seus 5 anos de idade.

Enfim, não tenho mais nada a declarar, só lagrimas…!

 

P.S: De origem japonesa, o haicai, de maneira geral, é um poema conciso, formado de três versos, no total de 17 sílabas: o primeiro verso tem 5 sílabas; o segundo verso tem 7 sílabas; o terceiro verso tem 5 sílabas. Não há necessidade de rima ou título.

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