As Três Peneiras

tres peneirasNo mundo bombardeado de informações de todas as formas, parece ser difícil descobrir com quem está a verdade. Pesquisar as fontes, identificar os discursos e nela a (in)coerência, a lógica ou simplesmente os ufanismos que pregam a categorização  de uma determinada retórica, são maneiras de encontrar algum sentido naquilo que se propõe defender o certo do errado.

Acontece que a desonestidade intelectual virou prática rotineira, exatamente para atender a conveniência ou a bandeira ideológica da qual se prega. É ou não é. Que lado está? O problema não é o lado a se posicionar. É está acima desta polarização mesquinha de categorias pseudo-acadêmicas que predeterminariam a qualidade política do indivíduo.

Em seu em ensaio “Verdade e Política” de 1967, Hannah Arendt dedicou-se a investigar como os fatos históricos geralmente são distorcidos quando politizados. Exclusivamente quando são usados como ferramentas para justificar decisões políticas específicas e a manipulação dos fatos e opiniões. Claro que Arendt não desvendou essa característica humana, na qual as mentiras sempre desempenharam um papel importante na história e na política mundial. A novidade em relação a tudo isso é somado às mídias, à tecnologia em rede, o uso demasiado da Internet, principalmente às redes sociais.

Associado ao estudo, ao conhecimento e à pesquisa, é sempre muito salutar escutar a voz dos sábios e, por essa experiência, por mais humilde que seja, agrega-se valor substancial a nossa vida sobre o entendimento e relevância das coisas, sobretudo ajuda nos situar acima das idiossincrasias do mundo contemporâneo. Assim, reproduzo a história, fato ou não, o encontro do jovem [pode ser eu ou você] com o maior Sábio da Grécia antiga, Sócrates.

Um jovem homem foi ao encontro do filósofo Sócrates carregando uma informação que julgava de seu interesse:

– Quero contar-te uma coisa a respeito de um amigo teu!

– Espera – disse o Sábio. Antes de contar-me, quero saber se fizeste passar essa informação pelas três peneiras?

– Três peneiras? Que queres dizer?

– Devemos sempre usar as três peneiras. Se não as conheces, presta bem atenção. A primeira é a peneira da VERDADE. Tens certeza o que queres dizer-me é verdade?

– Bem, foi o que ouvi outros contarem. Não sei exatamente se é verdade.

– A segunda peneira é a da BONDADE. Com certeza, deves ter passado a informação pela peneira da bondade. Ou não?

Envergonhado, o jovem respondeu:

– Devo confessar que não.

– A terceira peneira é a da UTILIDADE. Pensaste bem se é útil o que vieste falar a respeito do meu amigo?

– Útil? Na verdade, não!

– Então, disse-lhe o Sábio, se o que queres contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que o guardes apenas para ti.

Não dá para saber se aconteceu o diálogo, mas recheia fielmente a filosofia deste pensador. As três virtudes acima são importantes para viver uma vida virtuosa, onde a moralidade e o conhecimento estão ligados, segundo o Sábio Sócrates. Mas também, segundo ele, é um meio para descobrir e constituir um critério eficaz para diferenciar os verdadeiros dos falsos sábios.

 

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Ensaio sobre o simbolismo do número Dois

dois

Por João Fábio Braga

Num determinado documento oficial de uma organização (não vem ao acaso revelar, porém poucos saberão do que se trata), em que se prega o ensino de certas Artes para o engrandecimento do ser humano, consta, assim como outros ensinos valiosos, o estudo sobre o simbolismo dos números.  O texto afirma – o número Um como Unidade; e mais ainda, diz: é o princípio dos números, porém a unidade só existe pelos outros números, quer dizer, em outras palavras, na conjunção heterogênea das unidades, como cada número é, forma o Um.

Se afirmação acima está correta, é contraditória a argumentação seguinte que “o número dois é um número terrível, um número fatídico. É o símbolo dos contrários e, portanto, da dúvida, do desequilíbrio e da contradição. (…) ou o ‘Inimigo’, símbolo da Dúvida, quando nos salta o espírito.” Se o Dois é número tão negativo, logo a oração sublinhada não tem razão de ser. Para resolver este imbróglio, essa instrução argumenta que o Estudante pode vencer e superar as adversidades que o número Dois impõe, como?  Através de uma nova unidade que se converte n’uma terceira, o número Três.

Por ser o número Três o do – ….. – e está relacionado à trindade sagrada, acaba-se ignorando o número Dois e o reduzindo a uma sentença de menor valor. Condizente a sentença sublinada, o Dois é parte integrante da Unidade, sobretudo quando ele é a própria divisão. Pensar o Dois como símbolo dos contrários, nesta linha de raciocínio é coerente, há fundamento. Jung, no livro Mysterium Coniunctionis: As personificações dos opostos, aborda sobre os contrários, numa percepção alquímica onde os elementos são correspondentes, complementares e coexistentes no encontro dos opostos, seja confrontando-se na hostilidade ou atraindo-se no amor. “(…) eles formam um dualismo; por exemplo os opostos são: úmido/seco, frio/quente, acima/abaixo, espírito-alma/corpo, céu/terra, fogo/água, claro/escuro, ativo/passivo, volátil/sólido, bem/mal, exposto/oculto, masculino/feminino, Sol/Lua.” (p. 11) No Gênesis, podemos notar essa divisão na Criação, Deus separa no firmamento as águas de cima das águas debaixo. Nas Tábuas de Esmeraldas de Hermes Trismegisto está escrito o seguinte aforismo: como está embaixo é como está em cima como está em cima é como está embaixo

É nesse sentido, o número Dois é por efeito o desdobramento da unidade, representando a divisão, a diferença ou semelhança. Podemos pensar nesses termos, de maneira análoga, que os números Um e Dois correspondem um ao ato puro, em si mesmo, inatingível, de uma inteligência superior, enquanto o outro é a reflexão sobre o ato puro que produz a sua representação interior, o que o torna perceptível, comparável e compreensível. É graças à reflexão que tomamos consciência dele.

Por essa compreensão, o número Dois pode ser o número do amor ou a condição fundamental do amor, ou seja, o amor é inconcebível sem o Amante e a Amada, sem EU e o TU, sem o Um e o Outro. O exemplo familiar é a fraternidade. O Dois é número da reintegração da alma ao Criador: a Emancipação Eterna. Se é costumaz acreditar que tal simbolismo do número dois induz o Estudante ou todo caminhante na senda à dúvida, ao erro, induzindo-o, até mesmo de forma inconsciente, pela influência malévola, pequena que fosse, a descomunhão parcial ou completa da fraternidade entre irmãos, por onde a ignorância e a vaidade tomam forma desproporcional e dolente ao espírito, pois não há coisa maior de compartilhar que não seja o Amor e o Conhecimento.

Neste ponto nos aproximamos de um arcano do tarô, Lâmina de número Dois (carta) II A Papisa[1] representa a depositária da Ciência Sagrada e do despertar da permanência divina; é o receptáculo dos mistérios da Natureza; é o princípio gerador da polaridade e do discernimento, a Fonte dinâmica de toda vida e de todo conhecimento.

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Lâmina II no tarô de Rider Waite

A Lâmina A Papisa como o número dois está associado à passividade, ao feminino e ao repouso. A Papisa é o próprio repouso. É Deus que, depois da criação, repousa. Repousa para quê? O protagonismo do homem aparecesse como gestor da criação do Senhor.

Outro aspecto essencial e inerente ao número dois e a polaridade do universo é o binário.  O binário representa o rompimento da unidade, em outras palavras, o abandono à causa primeira, o caos essencial. Por essa razão, o início da busca da identidade, por via iniciática ou religiosa, começa quando se dar conta da necessidade de reintegração à unidade ou ajudar a manter o equilibro das forças elementares que causam o conflito.

Outra característica interessante do arcano é o Véu que recobre a Papisa e o livro aberto que está lendo. A existência deste véu fez com que muitos autores identificassem a Papisa com a deusa egípcia Ísis, e segundo Plutarco, numa inscrição gravada numa estátua no templo de Sais: Sou tudo que foi, tudo que é e tudo que será, e meu véu não foi rasgado por nenhum mortal.

Segundo outros autores, a Papisa seria “A Porta do Santuário”. O livro que está lendo simbolizaria o Livro da Vida [relacionaria a Torá, Bíblia]. Segundo um determinado autor, o termo Tarô significa: “o caminho real da Vida”. Este é o Livro da Vida e para lê-lo a descoberto é necessário ler “com os olhos do coração”.

O mistério do Arcano II está íntimo no interior de todos nós; é Mãe, esposa, virgem celeste. A Papisa ou Sacerdotisa se encontra na passagem entre o exterior ao interior; entre a ignorância ao conhecimento; entre a preguiça ao sentido prático; entre hipocrisia à verdade.

Então, o número Dois, como outros números, é o universo inteiro. É Templo de dentro de cada um. Não se pode duvidar da capacidade do Interior que cada um tem. Não se foge, escapa ou supera por outro número, se encontra e soma com outro irmão. Eis a essência de toda e qualquer fraternidade.

[1] A Papisa representa a Sabedoria, a Casa de Deus, a Lei e a Reflexão. Simbolicamente, no sentido mais restrito, está ligado ao princípio feminino, ao receptivo e ao materno; a intuição e ao mistério.
Referência Bibliográfica:
– EDINGER, Edward. O Mistério da Coniunctio: Imagem alquímica da individuação. São Paulo: Ed. Paulus, Coleção  Amor e  psique, 2008.

 

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Ensaio sobre o deus morto na obra de James Frazer

roda do destino

Roda da Fortuna numa gravura de 1165 

 

Ilustração no livro Hortus Deliciarum (Jardim das Delícias)

 

 Por João Fábio Braga

in memorian ao ir. Octaviano Gonçalves Cardoso Neto[1]

 

Ao longo da história da humanidade, referências não faltam que demonstre a evolução do pensamento, diversos povos manifestaram através de ritos, de mitos e de outras manifestações folclóricas esse avanço.

O antropólogo James Frazer[2] fez um extenso estudo comparativo dos mitos de vários povos primitivos e de civilizações antigas. Na obra o Ramo de Ouro, sua principal obra, o que chama atenção é sobre o arquétipo[3] do deus morto presente em várias religiões.

Antes de avaliarmos isso, é necessário considerar, de maneira breve, o conceito de magia de Frazer, pois está ligada a compreensão da própria estrutura arquetípica. Segundo o antropólogo, a magia tem por objetivo controlar por meio de “ritos” (técnicas) o mundo e os acontecimentos (assim o pensamento funcionou como mágico, religioso e científico).

Numa determinada etapa da evolução do pensamento, os homens começaram a relacionar os elementos da natureza a “um pensamento, uma vontade” a deuses. Daí resultou o nascimento da religião. É nesse processo de evolução anímica da magia que os homens procuraram “imitar” ou emular os elementos ou ações da natureza.

Aplica-se a isso um dos princípios da magia, a lei de similaridade justaposta ao entendimento do funcionamento dos sortilégios, é chamada de magia homeopática ou imitativa. Em suma, Frazer compara esse tipo de magia a um sistema espúrio da lei natural, isto é, o conjunto de regras que determinam as sequências dos acontecimentos.

Em outro princípio, o do contágio, a magia por contágio se baseia na associação de ideias pela contiguidade, por exemplo, segundo Frazer – “a crença de que coisas que, em certo momento, estiveram ligadas, mesmo que venham a ser completamente separadas uma da outra, devem conservar para sempre uma relação de simpatia, de modo que tudo o que afete uma delas afetará similarmente a outra.”

Nesse aspecto, de acordo com o princípio da magia simpática por contágio, o caso do rei que fora associado a um deus e sua morte fora inevitável por ser fraco ou velho, demonstra-se ao grupo a incapacidade de desempenhar adequadamente suas funções como protetor do curso da natureza porque sua fraqueza ameaçará a fertilidade da mesma. Consequência é a sua morte e a sua substituição por seu sucessor renovando a fé e a esperança numa boa colheita: le roi est mort, vive le roi (o rei está morto, viva o rei).

“O rei ou sacerdote divino conserva sua função com o assentimento do povo até que alguma deficiência evidente, algum sintoma visível de má saúde ou envelhecimento, mostre sua incapacidade de cumprir os deveres divinos; mas só quando tais sintomas são claros é ele eliminado. Há certos povos, porém, que julgam pouco seguro esperar até mesmo pelo mais leve sinal de decadência, e em lugar disso preferem matar o rei enquanto ainda está em pleno vigor. Assim, fixam um prazo para o seu reinado, findo o qual ele tem de morrer.” James Frazer

Em sua tese, numa passagem em particular, os mitos da criação, em todas os mitos antigas, apresentam-se, variavelmente, ressalva-se detalhes, com a mesma composição arquetípica. É o caso do deus morto. Esta ideia é encontrada, segundo o autor, em várias culturas. O deus morto é uma estrutura psíquica que está relacionada à construção simbólica da natureza em seus ciclos regenerativos, ou seja, morrer e se regenerar.

Em outras tradições herméticas este conceito também aparece, principalmente quando

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Ouroboros

 

se reproduz a ideia cíclica de eterno retorno. Na tradição alquímica, por exemplo, Ouroboros, a serpente enrolada em circulo que come a ponta da cauda, significa o símbolo de ciclo de vida e de morte. Na tradição da taromância, a lâmina do tarô que representa este Mistério é a lâmina Roda da Fortuna, que iconograficamente simula o ciclo de ascensão, queda e mudanças.

Importante perceber que em outras tradições essa estrutura do arquétipo se faz presente, tornando esses dados factuais e conectados. Frazer cita o caso do poder. Os ciclos de poder são observáveis na estrutura das sociedades antigas, cujo sentido de que é somente pela morte do rei anterior que o novo rei pode assumir. Daí o ciclo morte-regerenação-ressurreição assume essa compostura arquitípica no inconsciente coletivo da humanidade e que se repetiu em todos os Mistérios espelhados pela antiguidade.

As celebrações e cerimônias místicas que se realizavam em Elêusis, nos santuários egípcios de Ísis, na Samotrácia, nos templos hindus e nas florestas druídas, em todas elas incorporavam a celebração dos Mistérios, a fim de garantir a perenidade de suas vidas espirituais e ao mesmo tempo a sobrevivência de suas sociedades.

Segundo o autor, o paralelismo simbólico existente, por um lado, entre a morte e a

roda da fortuna

A Roda da Fortuna, Lâmina de número 10 no tarô de Marselha

 

ressurreição dos deuses e, por outro, com os ciclos e ritmos regenerativos da Natureza, está conectado, no centro desse rito, a necessidade de se realizar um sacrifício contínuo da vida como forma de proporcionar a sua perenidade: o deus morto ou herói se sacrificam pela salvação de seu povo, ou seja, assegurar a continuidade salvífica.

O ramo de ouro, símbolo da imortalidade, serviu de tema para inspiração de Frazer, com intuito de universalizar sua comparação dos povos antigos aos de hoje, como algo inerente às sociedades. Em poucas linhas resumo o mito que serviu de título para obra. O ramo de ouro deveria ser cortado de uma árvore localizada em um bosque sagrado à deusa Diana, a virgem, guardiã das florestas. Mas a árvore era vigiada incansavelmente noite e dia por um sacerdote guerreiro e sabia se relaxasse em algum momento, alguém o mataria e ficaria no seu lugar.

O deus morto é um arquétipo explorado por Frazer com grande maestria e ajuda compreender a história da humanidade e seus conflitos. Para além disso, acreditamos, que arquétipo pode acobertar Segredos e Mistérios que estão vinculados aos ciclos de vida e de morte, intrinsecamente associado ao tempo, ao espaço e à magia, não só das sociedades, do poder e dos costumes, também da experiência espiritual do próprio indivíduo: a morte iniciática é o nascimento da consciência interior, o prelúdio de uma nova jornada.

 

[1] Octaviano Gonçalves Cardoso Neto foi e sempre será um grande irmão. A minha admiração é enorme e satisfação em poder compartilhar da sua convivência, sobretudo juntos em prol da felicidade da humanidade. O último contato com o irmão foi uma conversa em torno do tema apresentado e o mesmo me engrandeceu com a sua sabedoria. Onde estiver meu querido e amado irmão, no Or.’. Eterno, que G.’.A.’.D.’.U.’.  ilumine teu espírito sempre.
[2] James Frazer (1854 – 1941) foi um influente antropólogo nos primeiros estágios dos estudos modernos de mitologia e religião comparada. A sua principal obra O Ramo de Ouro.
[3] Os arquétipos são conjuntos de “imagens primordiais” originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo, conceito desenvolvido pelo psicanalista Carl Jung.
Referencia Bibliográfica:
– FRAZER, James. O Ramo de Ouro. São Paulo: Círculo do Livro, 1978.
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O jeito árabe de amar

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Amor entre Aladdin & Jasmine

Por João Fábio Braga e dedicado com amor à Maria Luiza

No início do século XIII, Ibn Arabi[1] chega a Meca, onde é acolhido fraternalmente por um eminente xeque, por sua irmã e pela sua bela sobrinha Nizam.

Após muitas outras noites felizes juntos, acompanhado por discussões que giram em torno das grandes questões da vida e da morte. Numa determinada noite, Ibn Arabi começou a recitar alguns versos em voz alta durante uma caminhada em torno da Caaba[2].

De repente, ele sente um toque mais suave no ombro. Ao se virar, sente-se perplexo diante de tamanha beleza excepcional. Ela sorri ao mesmo tempo em que o sol está nascendo.

Não demora muito, ele descreve a ela sobre os seus negros cabelos cacheados e a sua língua de mel: “Ela é uma linda menina terna e virgem de seios intumescidos. Luas cheias sobre galhos sem mais temor de minguar… Uma pomba empoleirada sobre um galho no jardim das terras do meu corpo, morrendo de desejo, derretendo de paixão.”

Ibn Arabi encanta-se com presença intensamente erótica e da personalidade misteriosa e secreta de Nizam. A partir de então, o semblante de Nizam começa iluminar as noites de Ibn Arabi: “Meu dia no negror dos seus cabelos”… ele se apaixona e o desejo chega a doer.

Ele escreve: “Meu coração está doente de amor. Teus jardins molham de orvalho e tuas rosas florescem, tuas flores sorriem e teus ramos enternecem.”

No encanto, sabe Ibn Arabi, havia um elemento desafiador: “Teu olhar é espada empunhada.” Ibn Arabi se encoraja a aceitar o desafio de “atravessar o deserto”, tal como os cavaleiros cristãos desafiados a realizar atos de nobreza em nome de um amor romântico pelas damas da corte.

Nessa inspiração, o amor de Ibn Arabi por Nizan o transcende por uma elevada energia que o faz enfrentar o mesmo desafio.

Assim como a vida, o amor é um mistério. A paixão eleva o estado de consciência. Quando estamos apaixonados percebemos as forças que nos trouxeram a este mundo. E mesmo o mundo sendo racional e instrumental, o amor nos abre para os grandes segredos e mistérios das outras dimensões do universo.

A experiência do amor desafia o intelecto. Mil teorias, ideias, poemas e histórias falaram de amor e de paixão ao longo dos tempos. Mas racionalmente o que seria esse fenômeno? Afinal, qual é a fonte do amor? Segundo Ibn Arabi, o amor que move o universo também nos move e se move por meio de nós, de modo que quando amamos acabamos experimentando, provando, diretamente o amor universal.

[1] Árabe espanhol foi xeque do sufismo, principal organização  que impulsionou o misticismo no seio do Islã.
[2] A Caaba é a Casa sagrada de Deus situada no meio da mesquita sagrada na cidade de Meca, na Arábia Saudita.  A Caaba é um cubo negro. E todo mulçumano deve ir a este local pelo menos uma vez na vida. “Deus designou a Caaba como Casa Sagrada, como local seguro para os humanos.” (Alcorão 5:97)

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Assembléia na marcenaria

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Resgatar valor das relações humanas nas organizações de trabalho, na família e nas instituições, no sentindo que cada um tem o seu papel e sua importância, é um grande desafio numa sociedade em que a concorrência é cada vez maior, o egoísmo se alastra e afasta as pessoas.  É o que parece, em alguns casos, ou em sua maioria, cada um entende a sua maneira e não há preocupação com a função do outro, colocando os valores das organizações em crise, o que pode descambar numa verdadeira tragédia. Vejamos a estória.

Contam que, certa vez, na marcenaria houve uma estranha assembleia: uma reunião das ferramentas para acertar suas diferenças.

O martelo exerceu a presidência, mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar. Mas por qual motivo, ele perguntou. Responderam-lhe, – fazia demasiado barulho e, além do mais, passava todo o tempo golpeando.

O martelo aceitou sua culpa, porém pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir alguma coisa.

Diante da ofensiva, o parafuso concordou, e não hesitou, por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.

Não cessaram as acusações às outras ferramentas. Aceitaram seus defeitos, sob o pretexto de que cada ferramenta acusada se retirasse da marcenaria.

No meio da calorada discussão e sem nenhuma definição, entrou o marceneiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro, o parafuso e outros. Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino, bonito e elegante móvel.

Quando a marcenaria ficou novamente a sós, a assembléia reativou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:

“Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o marceneiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.”

Todos da assembléia começaram a compreender que cada um era imprescindível ao outro. Juntos eram melhores. O martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas e o metro era preciso e exato.

Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.

A metáfora serve de uma grande lição para todos nós. Basta observar e comprovar. Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa. Ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas. É fácil encontrar defeitos. Qualquer um pode fazê-lo. Mas encontrar qualidades, isto é para os sábios, sobretudo quando essas qualidades superam o ódio, a vaidade e a ignorância.

Veja o posto A Sabedoria Sioux

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Reflexão rápida sobre o Arcano II

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A curiosidade em torno da lâmina, conta os autores, é que a figura da papisa pode estar relacionada a um fato histórico, ou lendário, que permeou a literatura medieval: a existência de um papa do sexo feminino, conhecida como Papisa Joana, ou outro nome que ficou conhecido – Papa VIII.

 

Por João Fábio Braga

A Papisa representa a Sabedoria, a Casa de Deus, a Lei e a Reflexão. Simbolicamente, no sentido mais restrito, está ligado ao princípio feminino, ao receptivo e ao materno; a intuição e ao mistério.

Podemos entender este arcano pelo prisma do número dois. O dois, por exemplo, não carrega, como se difundi em algumas tradições, uma orientação negativa ou de caráter duvidoso e contraditório, muito pelo contrário, o número dois está associado à passividade, ao feminino e ao repouso. A Papisa é o próprio repouso. É Deus que, depois da criação, repousa.

Outro aspecto fundamental e inerente ao número dois e a polaridade do universo é o binário. Nesse sentido, o binário representa o rompimento da unidade, em outras palavras, o abandono à causa primeira, o caos essencial. Por essa razão, o início da busca da identidade, por via iniciática, começa quando se dar conta da necessidade de reintegração à unidade ou ajudar a manter o equilibro das forças elementares que produzem o conflito.

Outra característica interessante do arcano é o Véu que recobre a Papisa e o livro aberto que está lendo. A existência deste véu fez com que muitos autores identificassem a Papisa com a deusa egípcia Ísis, e segundo Plutarco, numa inscrição gravada numa estátua no templo de Sais: Sou tudo que foi, tudo que é e tudo que será, e meu véu não foi rasgado por nenhum mortal.

Segundo outros autores, a Papisa seria “A Porta do Santuário”. O livro que está lendo simbolizaria o Livro da Vida [relacionaria a Torá, Bíblia]. Segundo um determinado autor, o termo Tarô significa: “o caminho real da Vida”. Este é o Livro da Vida e para lê-lo a descoberto é necessário ler “com os olhos do coração”.

O mistério do Arcano II está íntimo no interior de todos nós; é Mãe, esposa, virgem celeste. A Papisa ou Sacerdotisa se encontra na passagem entre o exterior ao interior; entre a ignorância ao conhecimento; entre a preguiça ao sentido prático; entre hipocrisia à verdade.

 

 

Leia – Reflexão rápida sobre o Arcano I

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Simplesmente acontece

amor

De João à Maria

Há tempos esperei o vento trazer a grande novidade. Ela veio em formato de gente,
Com aquele sorriso e olhar que se sente.

E sem perceber o tempo, como um relógio quebrado, as horas passaram,  seu jeito me abriu a mente, ganhou-me espaço, forma e sentimento.

Foi a descoberta à vista ao coração por inteiro que inesperadamente, sem qualquer razão, ainda bate.

Velejam-se entre os dedos das minhas mãos seus lindos cabelos, num movimento lento e constante dos ventos, sob o luar e seus reflexos nas águas escuras do Rio Negro.

Aconteceu em cada abraço, em cada sussurro, em cada gesto, em cada riso, em cada olhar, os nossos beijos. Sobreveio da amizade o inevitável, o amor apareceu entre os dois.

O poema é dedicado a uma pessoa muito especial, com muito amor e carinho, à Maria Luiza.
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