Raimundo Jerimum, parte 4

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Tentação de Santo Antônio de 1962, autor : Gilvan Samico

Por J. F. R. Braga

Leiam as partes 1, 2 e 3

Parte 4

Chorando muito, com muita indignação e a raiva tomando o seu ego, Jerimum não estava acreditando, parecia viver um pesadelo; nem sequer imaginava o assassinato, covarde que foi, tinha saído de suas mãos. Olhava o rosto e o corpo moribunda de Martinha em seus braços, beijando-a nos lábios igual uma boneca inócua e fria, esperando apenas que estivesse desfalecida por alguns míseros minutos, como a branca de neve que acordaria do desespero e da agonia. Ele balbuciava aos prantos naquela hora tarde da noite, lamentando aos céus a perda trágica da pessoa que mais amava no mundo.

Ao mesmo tempo em que se remoía e se deplorava a consternação e a desolação da dor e do desgosto, a cada segundo que passava, a fúria de Jerimum iniciava sentir o cheiro de morte, de sombra e de ódio. Suas palavras questionavam a natureza das prioridades, dos acordos e dos negócios, chegando a pensar que preferiria a sua morte a de Martinha. Sabia no fundo que estava diante da verdade, sobre ele? Ainda não poderia responder, mas fugir do fato seria pusilânime. Podia correr que fosse, esconder-se, nunca se ocultaria da vergonha aos olhos de Deus.  Porém acusar é a ação mais fácil de encontrar a mentira, alimentá-la. Jerimum disse gritando, gesticulando como fosse bater, mesmo sendo o ar, sem se importar se acordaria a vizinhança: “- De jeito algum permitirei que me leve, seu miserável! Esse não foi o trato que fizemos. Seu invejoso, sabias que perderia, não aguentou a felicidade humana. Seu impostor, filho da puta, lascivo da porra!”  Toda a sua expressão mudou radicalmente, incorporando, desde as entranhas, o sentimento colérico, misturado ao desejo de destruir e de se vingar. Não tinha absolutamente nada a perder e nada o prendia, cobiçando expurgar de vez essa entidade maligna. Por enquanto, Jerimum não acataria prontamente a designação do diabo, simplesmente via nele o culpado pelos infortúnios, pecados e maldades. Contudo, era o que o capeta queria, arvorava-se da bestialidade humana.

Por sua vez, o diabo conhecia profundamente o gênio de Jerimum, nunca o enganou; crer que ele mudou realmente, só os incautos escorregavam no maniqueísmo e na ludibriação do homem que verdadeiramente nunca mudou. Ironicamente, o diabo falou: “Por que estás desesperados, Jerimum? Não estou nem um pouco. Lembras que me enganastes? Realmente fizemos o trato. Quem infringiu primeiro? Eu não fui. Sabes quem sou? Pois é, mentir, enganar, espoliar… Ingenuidade tua, ter fé em mim!” Como promotor de acusação, o diabo continuou com um tom mais incessante : “Que culpas, tenho? Quem escolheu beber não fui eu, o livre-arbítrio era seu. Todavia, tinha certeza que aconteceria. Jerimum, tu és um dos meus! Não fui eu que matei, quem realizou o crime? Você, Jerimum! Assassino! Jerimum, Assassino!”   

Porquanto o escutava desesperadamente, aquela euforia se desencantava paulatinamente em mea culpa; milhares de pensamentos o atormentavam e o efeito da cachaça esmiuçava. Suas mãos tampavam os ouvidos a cada acusação do inquisidor infernal.  “Pare, pare, não aguento mais!” dizia chorando como criança, Jerimum. Desejava nunca mais abrir seus olhos, viver eternamente num sonho. Era incapaz de apagar da mente o homicídio; não escaparia ao castigo tanto dos homens quanto de Deus. O destino era inevitável, a dor mais ainda. O corpo da sua amada era um cadáver repousado na sua cama e gradativamente ia se convencendo da autoria do crime.

Agora faria menos sentido ainda querer estar vivo. Convencia-se a cada instante a expropriar a própria vida, ou seja, entregar-se-ia como troféu, nem relutaria, nem algo parecido, aos desígnios do diabo.  O sofrimento dele era similar ao oceano num balde que nunca parava de derramar. A sua cabeça era um turbilhão de sensações suicidas, não enxergava outro jeito senão oferecer sua alma ao diabo. Sugeriu a ele a sua morte por enforcamento num dos galhos de uma gigantesca, linda e sagrada árvore, a grande sumaúma, conhecida como barriguda, perto das margens do rio que banhava a cidade, destacava-se por ela atingir setenta metros de altura e aproximadamente três metros de diâmetro; era a mãe e protetora da floresta, suas raízes chamadas de sapopembas eram superficiais e podiam cobrir um raio de mais de trezentos metros; um exemplar dela ficava perto da sua casa, local privilegiado onde todos poderiam ver o seu cadáver esticado por uma corda ao redor do pescoço como sinal de arrependimento.

O diabo gesticulou positivamente. “Seria interessante vê-lo pendurado nas alturas”, pensou. Lembrou Judas que traiu Jesus e se enforcou na árvore-do-amor, e ficou conhecida como árvore-de-judas, diferente da barriguda, possuía apenas quinze metros; no final gostaria que ela ficasse conhecida como “árvore-de-jerimum”; o diabo sempre buscando tirar proveitos para profanar o que é sagrado para natureza e para os homens. Por isso a sugestão veio com muito agrado e perversão. Adorava o estado perverso do homem, os demônios se nutriam e se fortaleciam com tamanha fartura.  O demônio satisfeito disse: “é chegado a hora, são quase três da manhã, a hora macabra, temos de nos apressar, logo amanhece.  Vamos por um fim nesta aflição, nesta dor; reconhecer a culpa e quanto desagradou a todos por aqui, é um passo para não merecer mais esta vida. Sabes que se optar por algo diferente que estou a dar ficará o resto dos dias preso, com o remorso e vergonha, deprimido e carcomido, escondido  e oprimido nas sombras. Acabou, Jerimum!” São palavras que um dia irão lhe acompanhar.

Cabisbaixo, arrependido, os olhos vermelhos deflagrados do choro mostravam a fisionomia contrita de Jerimum. Pegou a corda e a faca, que eram utilizadas cotidianamente para subir em árvores ou usadas para prender no canto ao outro a rede de embalar. Caminhando em direção à sumaúma, carregando os utensílios básicos de subsistência com a finalidade de consumar o suicídio, no percurso, uma crepitação sobrenatural reverberou na sua consciência que podia se aproveitar da circunstância e tentar enganar novamente o diabo. Agir e pensar rápido. O semblante do rosto mudaria para uma seriedade sarcástica, mas o coisa-ruim não o percebeu, e pensou consigo: “Ele não escapa, darei um fim nele; usarei o conhecimento da floresta que aprendi com Martinha.”

O convívio com a esposa ensinou a ele os mistérios que a floresta oferecia; ia desde chá, curas até os encantos e as magias. A relação do interiorano com a floresta é muito íntima e coexistente, onde o real e o fantástico se mesclam. O diabo não conhecia as propriedades mágicas que a barriguda inerentemente carregava e nem tampouco suas sapopembas longas serviam de canais de comunicação com a os animais, vegetais e espíritos da floresta. Próximo às três horas da manhã, Jerimum espertamente pergunta: “Se eu subir vai demorar um pouco para chegar naquele galho. E para agilizar o tempo, que tal amarrar a corda naquele galho pra mim, parece ser galho firme e resistente?”

O diabo observou e não demonstrou nenhuma desconfiança e concordou. Não houve esforço algum, no piscar de olhos, o diabo estava no galho e amarrou a corda, certificando que estava segura e que não arrebentaria. À medida que o diabo arrumava a corda, Jerimum executava um segundo plano – uns “paranauês” encantados; um ritual esquisito. O diabo lá de cima perguntou surpreso: “Que diabo, tu estás fazendo?” Concentrado e despistando-o, Jerimum respondeu: “Estou me preparando para me matar. Despedindo-me deste lugar e de tudo que amo.” Deu uma pausa, junto a uns movimentos estranhos e continuou olhando atentamente para cima em direção ao diabo e disse com toda confiança: “…E de você também e nunca mais atormente ninguém!”

Simultaneamente, Jerimum bate com a mão fechada, dando-lhe três batidas numa sapopemba. Na hora as batidas ecoaram por toda a floresta; esse segredo ritualístico pouquíssimas pessoas sabiam, e só poderia ser aproveitado quando fosse para alertar a Mãe-Natureza contra o perigo e a consequência de imediato era a defesa contra o invasor mal-intencionado. O diabo estava sendo enganado pela segunda vez e assustado por sentir a sua base ser revestida por galhos e seu espectro corpóreo se paralisava. Naquele mesmo instante, Jerimum arranhou com a faca o tronco da barriguda, desenhando uma cruz, com a intenção de garantir que o diabo ficasse prisioneiro até o dia de a árvore deixar de existir. Enquanto isso acontecia, a estrutura disforme do diabo desaparecia, sendo preenchida com galhos que o entrelaçavam e proferiu suas últimas palavras, com um tom profético, falou agoniadamente: “Não acredito que me enganastes de novo, não terás paz até o fim dos seus dias, nem mesmo depois de morto, não conseguirás descansar, irás vagar. maldito seja, Assassino!”

Já eram um pouco mais de três da madrugada. O diabo estava condenado assim como Jerimum. Ambos, ele tinha certeza que se definhariam nas suas prisões. Olhando previsivelmente ao casulo do maligno; os galhos justapostos formaram um contorno grotesco de tronco. E ao amanhecer foi encoberto por frutos e flores.

A jornada de Jerimum ainda não terminou. Se não fosse a polícia local, ele seria espancado até a morte. E foi jogado como animal na prisão da capital. O que acontecerá com o nosso anti-herói na prisão?

A  5 e última parte em breve

Leiam as partes 1, 2 e 3

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Raimundo Jerimum, parte 3

casamentoPor João Fábio Braga

Leia a primeira parte aqui, e a segunda aqui

Parte 3

Depois de quase um ano, Jerimum era outra pessoa. Estava cumprindo a promessa; pequeno deslize que fosse quebraria o pacto e nenhum recurso adiantaria, restaria apenas acompanhar o malfazejo no fogo condenatório eterno. Nem passava pela sua cabeça retroceder. Fingia esquecer. Mas não, era vigilante com as próprias atitudes; sendo correto e direito, o diabo nem meteria as caras! O pacto diante dessas circunstâncias era letra morta e inválida até que se cometasse alguma ilicitude.

A vida de jerimum tornou-se digna para quem já teve uma vida desgraçada. Os holofotes não faziam mais parte do seu repertório cotidiano, dava graças a Deus, o sucesso não tinha feito bem a ele nem tampouco as consequências. Nunca foi um homem religioso, apesar da educação evangélica, virou um crente frequente na comunidade, onde prestava constantemente o testemunho em torno do hilário episódio com o diabo.

Lembrara que no dia que retornava a sua cidade natal, ninguém notou sua presença e passou despercebido ao mercado local. Sua aparência não era das mais agradáveis, o jeito maltrapilho e o odor horrível afastavam as pessoas, nem imaginavam está diante de um dos seus, mas preferiam relacionar a um nômade à procura de comida e abrigo. Jerimum sabia que estava pagando por seus pecados, não seria fácil sua reabilitação e nem mesmo o seu recomeço, uma vez que perdeu tudo na última enchente. Os parentes que restavam não residiam na cidade, estava só e à deriva. A solidão viria a mudar e para muitos a sorte não bate duas vezes no mesmo lugar, Jerimum sentiu-se abençoado!

Toda essa felicidade se resumia numa mulher chamada Martinha. Ela não era bonita, também não poderia dizer que era feia, mas a força de mulher dela não estava na beleza, mas no conhecimento dos encantos da floresta, muito comum no interior. Ela era uma mulher de coração enorme e muito temente a Deus; era nova na cidade, veio acompanhada de uma tia. Ela o encontrou próximo a sua casa, sentindo frio e fome. Seu espírito acolhedor e como se tivesse cumprindo um dever cristão o levou à casa de abrigo para ajudá-lo.

Noutro dia ao visitá-lo, encontrá-lo-ia diferente do que encontrou. Inesperadamente os dois se olharam com ternura e a partir daí o amor entre eles começou. O amor opera milagres. O amor por Martinha recuperou a força e a vontade de recomeçar a vida, menos de um ano estavam casados. Tornou-se temente a Deus, voltou a trabalhar em hortaliças, realizava caridade junto à esposa, com ela aprendeu os segredos das matas, e, o mais importante, reconquistou o respeito da cidade.

Entretanto, a tranquilidade que ocorreram as coisas o fez desperceber ou não aprendeu que toda tranquilidade pode vir acompanhada de desconfiança. Ele estava certo que, durante um ano completo àquele evento, ficaria livre do pacto, assim como o diabo honrou com sua palavra ao se tornar uma moeda, honraria com o trato, pensava. O problema do pacto era com quem havia negociado o trato. Sujeito nada confiável. O diabo foi enganado, humilhado, execrado a ponto de ser cômico, bastava a chacota que nunca cessava nos círculos infernais.

Pensara secretamente que não deixaria barato, ia se vingar.  Descumpriria o trato, sempre descumpriu ao longo da história da humanidade, não era novidade. Levar a alma de Jerimum, agora, era questão de honra e não mais de diversão. O seu desejo era vê-lo humilhado, pedindo e implorando misericórdia; ao mesmo tempo, outro desejo muito mais cruel alimentava a sua mente: aflorar novamente a maldade dentro dele. Como arquitetaria essa maldade, diante da mudança sincera que vinha desenvolvendo, travando uma batalha desnecessária com os anjos do Senhor, maquiavelicamente refletia? A conclusão que diabo chegou era atingir dolorosamente o sentimento de Jerimum à amada Martinha. O diabo provocaria um grande teste com ele: induziria à loucura ou se manteria no caminho de salvação. Tinha certeza que a perda da amada faria cair em desgraça.

O ano inteiro se passou ao evento do bar e ao trato, Jerimum sentiu-se livre. Naquela amanhã acordou satisfeito por uma jornada completa. Sentia-se o homem mais feliz do mundo. Pensou – “não seria nada demais beber um pouco para comemorar a vitória contra o diabo.” No armazém mais próximo, comprou uma garrafa de vinho e trouxe p’ra casa e convidou a sua esposa a sua comemoração. Ao contrário, ela ficou surpresa, desde que o conheceu não tinha o visto beber, sempre o demonstrou um cara a verso a esse tipo de prática. Ela nem mesmo sabia de que era a sua comemoração; não era aniversário, ou alguma data especial; nem mesmo bebera na festa de casamento. A expressão facial de Martinha foi a de desaprovação do marido e o intimou: “se quiseres continuar a beber, por favor, faça fora da nossa casa.” Seu organismo havia se desacostumado com o álcool, o que permitiu que ficasse bêbado rapidamente. Não logrou sair de casa, instalou-se titubeadamente no armazém, conhecido como barracão do José, onde outros iguais, ao estado que se encontrava, estavam.

Todo o esforço de um novo homem estava sendo jogado no lixo. Dizia com orgulho aos seus iguais que a sua comemoração não era em vão: o triunfo contra o coisa-ruim, acreditando fazer inveja a Dom Quixote que derrotou apenas dragões. Pouco importava o conteúdo relatado àquela hora, bêbado queria beber. Alguém se importaria, com alguma racionalidade, o que bêbado tem a dizer? Entre eles, muito menos! Do entusiasmo ao falso heroísmo, a vaidade e o orgulho eram componentes que nunca dissociaram dele, desde a época dos jerimuns gigantes; estavam latentes à personalidade, nunca foi superado. O homem daquelas terras pareciam se engrandecer com muito pouco, como se não houvesse amanhã. O imediatismo era filosofia dos finais dos tempos, em que toda expectativa girasse numa falsa ostentação, num hedonismo a todo custo. Lá se iam uma, duas garrafas… Assim que o diabo gostava.

Ao retornar a sua humilde residência cambaleando, tarde da noite, comum do interiorano se recolher cedo para dormir, Jerimum encontrou à mesa à janta e no quarto sua caridosa esposa, cansada de tanto o esperar acabou dormindo. Sem medir as horas e a responsabilidade de marido, não hesitou de perturbar desagradavelmente o sono de Martinha que acordou espantada e sem entender o que estava acontecendo, nem demorou muito recobrar a consciência.

Bêbado, Jerimum cobrou dela o papel de esposa. Ele estava irreconhecível, e ela assustada; pediu com um tom trêmulo de medo que saísse da casa, senão chamaria a polícia. Não ouviu, não quis saber, partiu para cima dela, com o poder desproporcional ele a apanhou e rasgou sua camisola; ela ficou sem ação e nada ao seu alcance para resistir, contorcia-se com a esperança de poder fugir daquele monstro. Terrivelmente a jogou na cama, desnudada pela tirania do esposo bêbado, que a bofeteou duas vezes em resposta a tentativa de fuga e da mordida em seu ombro. Uma das mãos de Jerimum fechou sua boca e parte do braço afogou um dos braços dela, com o escopo de não permitir que gritasse e se soltasse; a outra mão que instantaneamente oprimia tanto para desbotar sua calça quanto para impedir movimentos do outro braço.  Martinha lutava com toda força e contra toda violência, chegou a pensar que a casa tinha sido invadida por um homem estranho, mas na verdade era o próprio marido, o estranho, o horrível, possuído pelo demônio.

Na agonia pedia a Deus que tudo terminasse, não queria morrer. Jerimum estava fora de si, mesmo bêbado considerou que conseguiria fazer sexo com a esposa e que ela consentiria, mas não. Foi o que levou à maldade. Finalmente, a tragédia se consumia; estuprada e estrangulada, Martinha era um anjo de mulher que não merecia a ferocidade do desequilibrado marido. Cada homem parece carregar escondido outro homem, que na má intenção é capaz de desarmonizar o universo, por causa da faceta cruel da humanidade que recair sobre o mesmo homem que – sem moral e seus escrúpulos – acredita – fazem valer a sentença que o crime realmente compensa.

O diabo atento e vocifera lentamente: Jeri…mum! Jeri…mum! Jeri…mum! Desnorteado, Jerimum procura obliquamente por essa voz tão terrível quanto o crime que cometeu e não se lembrava de ter escutado essa voz com ruídos e gutural antes. E o ser das trevas continuou: “Bravo, bravo, acaba de matar a sua amada esposa!” Como no instalo de consciência retomou a realidade e o medo se inspirou na alma quando deu de frente à materialização de quem ele menos esperava. Logo o desespero bateu quando viu sua amada esposa paralisada, nua, com marcas de violência pelo corpo e sem pulsão, caída na cama. Segurou-a nos seus braços, lamentando e chorando muito – “Meu Deus!, Meu Deus, digas que não foi eu. Martinha, meu amor! O que fizeste com a minha amada, cão!?” Era tarde demais, o diabo estava pronto a levá-lo ao inferno. Jerimum não se convenceu que ele cometera o crime; não acreditava na acusação do diabo; decidiu culpá-lo pela tragédia e não aceitaria ir com ele a nenhum lugar.

Em breve a quarta parte.

Leia a primeira parte

Leia a segunda Parte

 

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Conto da Véspera dos Dias de Todos os Santos – Raimundo Jerimum, parte 2

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Por João Fábio Braga

Leia a primeira parte aqui

Parte 2

O diabo apareceu e sentou-se ao lado de Jerimum e disse: “Hoje levarei a sua alma, sabe, ela me pertence. Não quero correr o risco que venha a se tornar uma pessoa boa, se extraviar do caminho do mal”. E Jerimum, espantado, mesmo bêbado, como era de costume, foi cauteloso, respirou fundo e falou: “Calma-te, agora que pedi uma bebida. Convido a beber comigo.”

O diabo concordou, pensou: havia tempo! E pelas suas contas de milênios, quase nem se lembrava do seu último gole de cachaça. O que mais curtia era estimular os filhos de Deus a pecar, embriagar era detalhe, quase um hobby. Como ser imperfeito que era, não resistiu a tomar uma, uma não, todas! Mal sabia ele, estava entrando numa furada, Jerimum tinha intenções de enganá-lo para escapar dos desígnos de outro mundo. Sabia que, com o diabo ninguém se brinca, naquela altura tanto faz como tanto fez, era tentar, já estava na merda mesmo. Animado, deixou-o beber à vontade.

O bar era na verdade uma taberna que se vendia quase tudo: de especiarias a Torxilax. A entrada se confundia à garagem e encontrava-se ao lado do balcão que estava defronte à calçada. Estranho que as mesas e cadeiras estavam organizadas caoticamente na rua e nem fazia diferença às pessoas está ou não, até a sarjeta tornou-se o assento para quem nem se importa o quê beber, beber até cair! O diabo e o Jerimum, sentados face a face, encostados ao balcão, pareciam estar numa disputa quem levantava mais o copo. Após um longo período de ardiloso papo de bêbado – que não vale apena mencionar devido à transcendência a graus etílicos – os dois se semelhavam a velhos companheiros e veteranos de guerra.

Adiantada hora, a dona do bar, irritada, grosseira de sempre e com toda razão, queria expulsá-los porque os dois não tinham hora para parar. O diabo, bêbado, recobrou a memória e disse: “Está na hora, continuamos a beber no inferno.” O espanto tomou conta da alma de Jerimum, mas não esqueceu da execução do plano, podia dar errado; o certo dependia de fatores que pudessem contrariar o obsequiado diabo. Propôs a saideira, a dona do bar não gostou, tranquilizou-a dizendo que podia fecha tudo e dormir, contanto que o último trago de cachaça coroasse a madrugada e a conta por esses últimos dois copos fossem do diabo, já que estava sem um puto a mais de dinheiro.

O diabo não acreditou e deu de desdém a essa audácia. Jerimum o lembrou: era costume local não fugir da saideira, uma espécie de obrigação moral de não desdenhar às gerações predecessoras da fé etílica, uma ofensa à história do álcool, que muito bem o diabo conhecia e tinha um grande orgulho de seu feito. Sua indignação contrariava aquilo que tanto defendia e quanto prazer sentia ao manipular alguém. Jerimum explorava essa retórica a ponto de convencê-lo aceitar. Porém sua recusa ia mais além do que qualquer reserva moral; moral, ele tinha? Nenhuma. Tudo que ia contra a moral e os bons costumes, o “dedo” dele estava no meio.

Surpreendentemente, encontrava-se sem um tostão para bancar o derradeiro pedido. Patrocinar o ódio e a discórdia, o diabo operava com maestria, por isso mesmo sentiu desonra e vergonha, pois passaria ideia de ser fujão, um covarde ou outros adjetivos semelhantes. Mesmo assim, parte da consciência dele se dizia contrária à sugestão. “Então, o que quer que eu faça para resolver esse imbróglio?” Disse relutante o diabo.  Jerimum percebeu a inquietação do diabo, deduziu acertadamente que nenhum troco possuía. Finalmente, intuiu que chegava o momento mais aguardado e logo se veria livre desse encosto e pronto a retornar a antiga vida. Sem medo e com espírito intimidador, como se tivesse construindo uma emboscada, de fato era, Jerimum, ao modo de burlador, questionou ironicamente: “se você é o que sempre diz, em qualquer coisa pode se transformar, não é?” O diabo pensou e respondeu: “claro que sim, transformar, no sentido negativo ou que leve as pessoas se afastar de Deus, é o objetivo primordial. Caso não notou, você é o sujeito interessante. Na minha lista o tenho como um dos preferidos:  era simples, bom; a fama o corrompeu, não soube lhe dar com ela; o teu rosto se desconfigurou; tuas atitudes se tornaram perversas. Eu estava te ajudando a mudar. Eis a transformação!”

O diabo nem imaginava onde Jerimum queria chegar, não tinha capacidade ou habilidade de saber o que interiorano pensava. Somente Deus acessava os pensamentos e o diabo assoprava os ouvidos, com a intenção dos homens pecarem. Com um tom de provocação, Jerimum lançou a proposta: “Agradeço a consideração. Que tal se transformar numa moeda, afim que eu pague com ela a saideira e em seguida retorne para terminarmos de beber?” O diabo desconfiado, observou-o e nos seus pensamentos veio a seguinte sentença: “quem acredita que engana o diabo, acaba despercebendo que pode ser enganado”. O diabo pensou e chegou a conclusão: “Se Jerimum se acha esperto, serei mais ainda; aparecerei em qualquer lugar, qualquer hora, e levarei sua tortuosa alma de qualquer jeito.” Aceitou em se transformar em moeda, sabia ele que retornaria facilmente e recobraria a ideia de que ninguém pode enganá-lo.

No instante, como mágica, o ser maligno se reduziu a se materializar numa moeda; ela rodopiou até parar sobre o balcão. Estático, inacreditavelmente, Jerimum ficou. Não demorou e pensou: “é a minha chance e não posso desperdiçá-la.” Puxou do bolso uma carteira surrada, apanhou a moeda e colocou dentro. Os dois copos de cachaça da saideira, ele próprio tomou e não quis nem saber e saiu discretamente sem pagar. No interior da carteira, havia um feche com formato de cruz e lá se encontrava guardada a moeda. Isso significou a morte! Jerimum enganou o diabo, um acontecimento histórico! A frustração e o desespero do diabo tomaram conta do seu ego; assaltaram sua convicção e confiança. Sob o pé da cruz seria o mesmo que própria cova.

Diminuído, fragilizado e humilhado, o diabo – preso – chegou o nível de implorar de joelhos que lhe tirassem dali. Durante semanas foram assim, Jerimum comparava essa situação a um poder inimaginável que tinha nas mãos. Cansado dos lamentos, gritos de desespero, resolveu negociar. Esperto, propôs: “eu o tiro daí, com uma condição. Se durante um ano eu não mudar para melhor, irei sem hesitar.” O diabo retorquiu: “durante um ano haverá uma trégua, caso não mude, após o prazo vou vir te buscar.” O diabo continuou: “estamos fechando um pacto, certo?” Jerimum, que já estava bêbado, acenou positivo com a cabeça. “- Trato feito! Por ocasião, me tire daqui, né!” firmemente disse o diabo.

Jerimum o libertou. Desde esse evento, resolveu voltar a ser uma pessoa direita e o prazo estipulado logo acabaria, tinha certeza que triunfaria por conseguir a meta. Todavia, contudo, o diabo nunca foi confiável, a mentira sempre foi combustível para maldade. Ele estava preparado para se vingar. Jerimum, ingenuamente, nem imaginava o que estaria porvir.

Em breve a terceira parte.

Leia a primeira parte

 

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Conto da Véspera dos Dias de Todos os Santos – Raimundo Jerimum

morte

Por João Fábio Braga

Parte 1

Raimundo “jerimum” assim era chamado por muitos. Era um simples homem, caboclo, agricultor e pescador, cuja identidade era alinhado atividade de subsistência, comum do interiorano amazônico. O apelido fazia jus à sua fama, porque numa determinada colheita de suas hortaliças, aproveitando das circunstâncias ambientais como o nível baixo dos rios, tendo menor impacto nas áreas de várzea, o que pode ter facilitado o aparecimento de jerimuns de tamanhos anormais, variando de 16 quilos a 23 quilos. Porém o mais impressionante estava num único jerimum, com mais ou menos dois metros e trinta centímetros de diâmetro e quase duzentos quilos. O feito da natureza ganhou destaque na mídia local e nacional, Raimundo concedeu muitas entrevistas, mostrava as fotos junto aos gigantes jerimuns e não custou muito associarem a hortaliça ao seu nome. Nunca chegou a imaginar um feito como esse, nunca procurou. A cultura produtora do lugar que vinha, estava longe de ser uma empresa de agronegócio, era mais uma cultura que valorizava o próprio sustento. Talvez por essa razão, a fama entrou de forma descontrolada na vida de Raimundo.

Era um verdadeiro admirável mundo novo. Chegou a ser orgulho para sua pequena cidade. A fama levou Raimundo à capital, um sonho de criança sendo realizado e lá iria, como em outras oportunidades, contar num canal de televisão à vida de um homem do interior e do seu jerimum gigante. Toda essa história não mudou em nada a vida de Raimundo, cheia de empolgação e imprudência. A capital, nem de perto era Liverpool, mas uma cidade de costa para o rio, com requinte de uma cidade soberba de exageros de querer ser o que não é, o que é típico dos trópicos, e nela acolhedora de sempre, Raimundo a toda solidão possível, dois mundos desatinados que se entrechocam, não parece mais ser o mesmo. A face dele ficou, pouco a pouco, irreconhecível, era tão nítida a transformação que ninguém mais se lembrava do homem que tinha ido a programas da tevê, infelizmente, com todo pesar, tornou-se fracassado e grosseiro.

Soube que, depois que a fama deu uma acalmada, a casa, a plantação de hortaliças foram inundadas, até a família desapareceu. Perdeu tudo. Sem dinheiro para retornar, desesperado, com dívidas acumuladas, percebeu o erro, que tragou de uma vez, de esquecer da sua roça, do seu canto particular e de toda sua natureza em volta. Dia após dias, voluntariamente, Raimundo se esquecia de tudo e de todos, se alcoolizando todo santo dia, virou alcoólatra e dependente de outras drogas. Também não podemos deixar de mencionar que ele veio se tornar um sujeito miserável, imprestável e de todo mau. A cidade o sugava e ele sugava a cidade. Como  velho ditado dizia: cabeça vazia é oficina do diabo. Era realidade inegável para quem foi ao céu e despencou, espatifando como geleia na terra.  Quanto mais alto se vai, maior o tombo, assim dizem as pessoas às pessoas não humildes.

O desespero é estado de morte que requer atenção por parte do viciado, pois vive-se o instante, um verdadeiro convite, o beijo desesperado de morte. Raimundo sabia e tinha certeza que a alucinação era única capaz de  superar ou apagar, mesmo por momentos, a visão do próprio inferno, da quimera, do abismo e da fantasmagoria. Não por muito tempo sabemos. E o ciclo recomeçava.

O diabo a par de sempre da situação, como bom observador, sempre observou atentamente Raimundo desde que era criança, e planejava prazerosamente os testes que seriam aplicados dependendo das circunstâncias ou do pecado. As maldades que Raimundo cometia, o diabo ria e se divertia, desejando que viesse logo morrer para morar no inferno de uma vez por todas. Enquanto as pessoas lamentavam o seu estado, o diabo estava convencido de levar a alma de Jerimum, muitos começavam a chamá-lo, com reservas, desse jeito. Numa determinada noite no centro da cidade, no bar da Dona Orminda, que curiosamente ela era “Mãe de Santo” ou macumbeira, o que isso importa! O diabo apareceu e sentou-se ao lado de Jerimum e disse: “Hoje levarei a sua alma, sabe, ela me pertence. Não quero correr o risco que venha a se tornar uma pessoa boa, se extraviar do caminho do mal”. E Jerimum, espantado, mesmo bêbado, como era de costume, foi cauteloso, respirou fundo e falou: “Calma-te, agora que pedi uma bebida. Convido a beber comigo.” E o diabo concordou.

Continuação parte 2 em breve

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As Três Peneiras

tres peneirasNo mundo bombardeado de informações de todas as formas, parece ser difícil descobrir com quem está a verdade. Pesquisar as fontes, identificar os discursos e nela a (in)coerência, a lógica ou simplesmente os ufanismos que pregam a categorização  de uma determinada retórica, são maneiras de encontrar algum sentido naquilo que se propõe defender o certo do errado.

Acontece que a desonestidade intelectual virou prática rotineira, exatamente para atender a conveniência ou a bandeira ideológica da qual se prega. É ou não é. Que lado está? O problema não é o lado a se posicionar. É está acima desta polarização mesquinha de categorias pseudo-acadêmicas que predeterminariam a qualidade política do indivíduo.

Em seu em ensaio “Verdade e Política” de 1967, Hannah Arendt dedicou-se a investigar como os fatos históricos geralmente são distorcidos quando politizados. Exclusivamente quando são usados como ferramentas para justificar decisões políticas específicas e a manipulação dos fatos e opiniões. Claro que Arendt não desvendou essa característica humana, na qual as mentiras sempre desempenharam um papel importante na história e na política mundial. A novidade em relação a tudo isso é somado às mídias, à tecnologia em rede, o uso demasiado da Internet, principalmente às redes sociais.

Associado ao estudo, ao conhecimento e à pesquisa, é sempre muito salutar escutar a voz dos sábios e, por essa experiência, por mais humilde que seja, agrega-se valor substancial a nossa vida sobre o entendimento e relevância das coisas, sobretudo ajuda nos situar acima das idiossincrasias do mundo contemporâneo. Assim, reproduzo a história, fato ou não, o encontro do jovem [pode ser eu ou você] com o maior Sábio da Grécia antiga, Sócrates.

Um jovem homem foi ao encontro do filósofo Sócrates carregando uma informação que julgava de seu interesse:

– Quero contar-te uma coisa a respeito de um amigo teu!

– Espera – disse o Sábio. Antes de contar-me, quero saber se fizeste passar essa informação pelas três peneiras?

– Três peneiras? Que queres dizer?

– Devemos sempre usar as três peneiras. Se não as conheces, presta bem atenção. A primeira é a peneira da VERDADE. Tens certeza o que queres dizer-me é verdade?

– Bem, foi o que ouvi outros contarem. Não sei exatamente se é verdade.

– A segunda peneira é a da BONDADE. Com certeza, deves ter passado a informação pela peneira da bondade. Ou não?

Envergonhado, o jovem respondeu:

– Devo confessar que não.

– A terceira peneira é a da UTILIDADE. Pensaste bem se é útil o que vieste falar a respeito do meu amigo?

– Útil? Na verdade, não!

– Então, disse-lhe o Sábio, se o que queres contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que o guardes apenas para ti.

Não dá para saber se aconteceu o diálogo, mas recheia fielmente a filosofia deste pensador. As três virtudes acima são importantes para viver uma vida virtuosa, onde a moralidade e o conhecimento estão ligados, segundo o Sábio Sócrates. Mas também, segundo ele, é um meio para descobrir e constituir um critério eficaz para diferenciar os verdadeiros dos falsos sábios.

 

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Ensaio sobre o simbolismo do número Dois

dois

Por João Fábio Braga

Num determinado documento oficial de uma organização (não vem ao acaso revelar, porém poucos saberão do que se trata), em que se prega o ensino de certas Artes para o engrandecimento do ser humano, consta, assim como outros ensinos valiosos, o estudo sobre o simbolismo dos números.  O texto afirma – o número Um como Unidade; e mais ainda, diz: é o princípio dos números, porém a unidade só existe pelos outros números, quer dizer, em outras palavras, na conjunção heterogênea das unidades, como cada número é, forma o Um.

Se afirmação acima está correta, é contraditória a argumentação seguinte que “o número dois é um número terrível, um número fatídico. É o símbolo dos contrários e, portanto, da dúvida, do desequilíbrio e da contradição. (…) ou o ‘Inimigo’, símbolo da Dúvida, quando nos salta o espírito.” Se o Dois é número tão negativo, logo a oração sublinhada não tem razão de ser. Para resolver este imbróglio, essa instrução argumenta que o Estudante pode vencer e superar as adversidades que o número Dois impõe, como?  Através de uma nova unidade que se converte n’uma terceira, o número Três.

Por ser o número Três o do – ….. – e está relacionado à trindade sagrada, acaba-se ignorando o número Dois e o reduzindo a uma sentença de menor valor. Condizente a sentença sublinada, o Dois é parte integrante da Unidade, sobretudo quando ele é a própria divisão. Pensar o Dois como símbolo dos contrários, nesta linha de raciocínio é coerente, há fundamento. Jung, no livro Mysterium Coniunctionis: As personificações dos opostos, aborda sobre os contrários, numa percepção alquímica onde os elementos são correspondentes, complementares e coexistentes no encontro dos opostos, seja confrontando-se na hostilidade ou atraindo-se no amor. “(…) eles formam um dualismo; por exemplo os opostos são: úmido/seco, frio/quente, acima/abaixo, espírito-alma/corpo, céu/terra, fogo/água, claro/escuro, ativo/passivo, volátil/sólido, bem/mal, exposto/oculto, masculino/feminino, Sol/Lua.” (p. 11) No Gênesis, podemos notar essa divisão na Criação, Deus separa no firmamento as águas de cima das águas debaixo. Nas Tábuas de Esmeraldas de Hermes Trismegisto está escrito o seguinte aforismo: como está embaixo é como está em cima como está em cima é como está embaixo

É nesse sentido, o número Dois é por efeito o desdobramento da unidade, representando a divisão, a diferença ou semelhança. Podemos pensar nesses termos, de maneira análoga, que os números Um e Dois correspondem um ao ato puro, em si mesmo, inatingível, de uma inteligência superior, enquanto o outro é a reflexão sobre o ato puro que produz a sua representação interior, o que o torna perceptível, comparável e compreensível. É graças à reflexão que tomamos consciência dele.

Por essa compreensão, o número Dois pode ser o número do amor ou a condição fundamental do amor, ou seja, o amor é inconcebível sem o Amante e a Amada, sem EU e o TU, sem o Um e o Outro. O exemplo familiar é a fraternidade. O Dois é número da reintegração da alma ao Criador: a Emancipação Eterna. Se é costumaz acreditar que tal simbolismo do número dois induz o Estudante ou todo caminhante na senda à dúvida, ao erro, induzindo-o, até mesmo de forma inconsciente, pela influência malévola, pequena que fosse, a descomunhão parcial ou completa da fraternidade entre irmãos, por onde a ignorância e a vaidade tomam forma desproporcional e dolente ao espírito, pois não há coisa maior de compartilhar que não seja o Amor e o Conhecimento.

Neste ponto nos aproximamos de um arcano do tarô, Lâmina de número Dois (carta) II A Papisa[1] representa a depositária da Ciência Sagrada e do despertar da permanência divina; é o receptáculo dos mistérios da Natureza; é o princípio gerador da polaridade e do discernimento, a Fonte dinâmica de toda vida e de todo conhecimento.

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Lâmina II no tarô de Rider Waite

A Lâmina A Papisa como o número dois está associado à passividade, ao feminino e ao repouso. A Papisa é o próprio repouso. É Deus que, depois da criação, repousa. Repousa para quê? O protagonismo do homem aparecesse como gestor da criação do Senhor.

Outro aspecto essencial e inerente ao número dois e a polaridade do universo é o binário.  O binário representa o rompimento da unidade, em outras palavras, o abandono à causa primeira, o caos essencial. Por essa razão, o início da busca da identidade, por via iniciática ou religiosa, começa quando se dar conta da necessidade de reintegração à unidade ou ajudar a manter o equilibro das forças elementares que causam o conflito.

Outra característica interessante do arcano é o Véu que recobre a Papisa e o livro aberto que está lendo. A existência deste véu fez com que muitos autores identificassem a Papisa com a deusa egípcia Ísis, e segundo Plutarco, numa inscrição gravada numa estátua no templo de Sais: Sou tudo que foi, tudo que é e tudo que será, e meu véu não foi rasgado por nenhum mortal.

Segundo outros autores, a Papisa seria “A Porta do Santuário”. O livro que está lendo simbolizaria o Livro da Vida [relacionaria a Torá, Bíblia]. Segundo um determinado autor, o termo Tarô significa: “o caminho real da Vida”. Este é o Livro da Vida e para lê-lo a descoberto é necessário ler “com os olhos do coração”.

O mistério do Arcano II está íntimo no interior de todos nós; é Mãe, esposa, virgem celeste. A Papisa ou Sacerdotisa se encontra na passagem entre o exterior ao interior; entre a ignorância ao conhecimento; entre a preguiça ao sentido prático; entre hipocrisia à verdade.

Então, o número Dois, como outros números, é o universo inteiro. É Templo de dentro de cada um. Não se pode duvidar da capacidade do Interior que cada um tem. Não se foge, escapa ou supera por outro número, se encontra e soma com outro irmão. Eis a essência de toda e qualquer fraternidade.

[1] A Papisa representa a Sabedoria, a Casa de Deus, a Lei e a Reflexão. Simbolicamente, no sentido mais restrito, está ligado ao princípio feminino, ao receptivo e ao materno; a intuição e ao mistério.
Referência Bibliográfica:
– EDINGER, Edward. O Mistério da Coniunctio: Imagem alquímica da individuação. São Paulo: Ed. Paulus, Coleção  Amor e  psique, 2008.

 

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Ensaio sobre o deus morto na obra de James Frazer

roda do destino

Roda da Fortuna numa gravura de 1165 

 

Ilustração no livro Hortus Deliciarum (Jardim das Delícias)

 

 Por João Fábio Braga

in memorian ao ir. Octaviano Gonçalves Cardoso Neto[1]

 

Ao longo da história da humanidade, referências não faltam que demonstre a evolução do pensamento, diversos povos manifestaram através de ritos, de mitos e de outras manifestações folclóricas esse avanço.

O antropólogo James Frazer[2] fez um extenso estudo comparativo dos mitos de vários povos primitivos e de civilizações antigas. Na obra o Ramo de Ouro, sua principal obra, o que chama atenção é sobre o arquétipo[3] do deus morto presente em várias religiões.

Antes de avaliarmos isso, é necessário considerar, de maneira breve, o conceito de magia de Frazer, pois está ligada a compreensão da própria estrutura arquetípica. Segundo o antropólogo, a magia tem por objetivo controlar por meio de “ritos” (técnicas) o mundo e os acontecimentos (assim o pensamento funcionou como mágico, religioso e científico).

Numa determinada etapa da evolução do pensamento, os homens começaram a relacionar os elementos da natureza a “um pensamento, uma vontade” a deuses. Daí resultou o nascimento da religião. É nesse processo de evolução anímica da magia que os homens procuraram “imitar” ou emular os elementos ou ações da natureza.

Aplica-se a isso um dos princípios da magia, a lei de similaridade justaposta ao entendimento do funcionamento dos sortilégios, é chamada de magia homeopática ou imitativa. Em suma, Frazer compara esse tipo de magia a um sistema espúrio da lei natural, isto é, o conjunto de regras que determinam as sequências dos acontecimentos.

Em outro princípio, o do contágio, a magia por contágio se baseia na associação de ideias pela contiguidade, por exemplo, segundo Frazer – “a crença de que coisas que, em certo momento, estiveram ligadas, mesmo que venham a ser completamente separadas uma da outra, devem conservar para sempre uma relação de simpatia, de modo que tudo o que afete uma delas afetará similarmente a outra.”

Nesse aspecto, de acordo com o princípio da magia simpática por contágio, o caso do rei que fora associado a um deus e sua morte fora inevitável por ser fraco ou velho, demonstra-se ao grupo a incapacidade de desempenhar adequadamente suas funções como protetor do curso da natureza porque sua fraqueza ameaçará a fertilidade da mesma. Consequência é a sua morte e a sua substituição por seu sucessor renovando a fé e a esperança numa boa colheita: le roi est mort, vive le roi (o rei está morto, viva o rei).

“O rei ou sacerdote divino conserva sua função com o assentimento do povo até que alguma deficiência evidente, algum sintoma visível de má saúde ou envelhecimento, mostre sua incapacidade de cumprir os deveres divinos; mas só quando tais sintomas são claros é ele eliminado. Há certos povos, porém, que julgam pouco seguro esperar até mesmo pelo mais leve sinal de decadência, e em lugar disso preferem matar o rei enquanto ainda está em pleno vigor. Assim, fixam um prazo para o seu reinado, findo o qual ele tem de morrer.” James Frazer

Em sua tese, numa passagem em particular, os mitos da criação, em todas os mitos antigas, apresentam-se, variavelmente, ressalva-se detalhes, com a mesma composição arquetípica. É o caso do deus morto. Esta ideia é encontrada, segundo o autor, em várias culturas. O deus morto é uma estrutura psíquica que está relacionada à construção simbólica da natureza em seus ciclos regenerativos, ou seja, morrer e se regenerar.

Em outras tradições herméticas este conceito também aparece, principalmente quando

oroboros

Ouroboros

 

se reproduz a ideia cíclica de eterno retorno. Na tradição alquímica, por exemplo, Ouroboros, a serpente enrolada em circulo que come a ponta da cauda, significa o símbolo de ciclo de vida e de morte. Na tradição da taromância, a lâmina do tarô que representa este Mistério é a lâmina Roda da Fortuna, que iconograficamente simula o ciclo de ascensão, queda e mudanças.

Importante perceber que em outras tradições essa estrutura do arquétipo se faz presente, tornando esses dados factuais e conectados. Frazer cita o caso do poder. Os ciclos de poder são observáveis na estrutura das sociedades antigas, cujo sentido de que é somente pela morte do rei anterior que o novo rei pode assumir. Daí o ciclo morte-regerenação-ressurreição assume essa compostura arquitípica no inconsciente coletivo da humanidade e que se repetiu em todos os Mistérios espelhados pela antiguidade.

As celebrações e cerimônias místicas que se realizavam em Elêusis, nos santuários egípcios de Ísis, na Samotrácia, nos templos hindus e nas florestas druídas, em todas elas incorporavam a celebração dos Mistérios, a fim de garantir a perenidade de suas vidas espirituais e ao mesmo tempo a sobrevivência de suas sociedades.

Segundo o autor, o paralelismo simbólico existente, por um lado, entre a morte e a

roda da fortuna

A Roda da Fortuna, Lâmina de número 10 no tarô de Marselha

 

ressurreição dos deuses e, por outro, com os ciclos e ritmos regenerativos da Natureza, está conectado, no centro desse rito, a necessidade de se realizar um sacrifício contínuo da vida como forma de proporcionar a sua perenidade: o deus morto ou herói se sacrificam pela salvação de seu povo, ou seja, assegurar a continuidade salvífica.

O ramo de ouro, símbolo da imortalidade, serviu de tema para inspiração de Frazer, com intuito de universalizar sua comparação dos povos antigos aos de hoje, como algo inerente às sociedades. Em poucas linhas resumo o mito que serviu de título para obra. O ramo de ouro deveria ser cortado de uma árvore localizada em um bosque sagrado à deusa Diana, a virgem, guardiã das florestas. Mas a árvore era vigiada incansavelmente noite e dia por um sacerdote guerreiro e sabia se relaxasse em algum momento, alguém o mataria e ficaria no seu lugar.

O deus morto é um arquétipo explorado por Frazer com grande maestria e ajuda compreender a história da humanidade e seus conflitos. Para além disso, acreditamos, que arquétipo pode acobertar Segredos e Mistérios que estão vinculados aos ciclos de vida e de morte, intrinsecamente associado ao tempo, ao espaço e à magia, não só das sociedades, do poder e dos costumes, também da experiência espiritual do próprio indivíduo: a morte iniciática é o nascimento da consciência interior, o prelúdio de uma nova jornada.

 

[1] Octaviano Gonçalves Cardoso Neto foi e sempre será um grande irmão. A minha admiração é enorme e satisfação em poder compartilhar da sua convivência, sobretudo juntos em prol da felicidade da humanidade. O último contato com o irmão foi uma conversa em torno do tema apresentado e o mesmo me engrandeceu com a sua sabedoria. Onde estiver meu querido e amado irmão, no Or.’. Eterno, que G.’.A.’.D.’.U.’.  ilumine teu espírito sempre.
[2] James Frazer (1854 – 1941) foi um influente antropólogo nos primeiros estágios dos estudos modernos de mitologia e religião comparada. A sua principal obra O Ramo de Ouro.
[3] Os arquétipos são conjuntos de “imagens primordiais” originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo, conceito desenvolvido pelo psicanalista Carl Jung.
Referencia Bibliográfica:
– FRAZER, James. O Ramo de Ouro. São Paulo: Círculo do Livro, 1978.
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