O Mistério do Nascimento de Jesus

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Por J. R. Braga

O que muita gente não sabe em relação aos Segredos do Sagrado, sobretudo os mistérios que carregam o cristianismo, especialmente o que está em torno da encarnação de Jesus: não é simplesmente comemorar o aniversário e n’outro dia a vida segue como se nada tivesse acontecido e ficar por isso mesmo. Como um só homem mudaria radicalmente a história do mundo. E, por vias enigmáticas, por Ele e n’Ele, o Espírito Santo influencia e atua na vida, na fé e na história das pessoas e na história dos acontecimentos do mundo.

Este fato é muito mais do que possamos absorver como seres mortais e pecadores que somos, mas se reflete misteriosamente na vida e na fé daqueles que creem ou naqueles que percebem a manifestação do acontecido na realidade histórica. De fato,  além da ruptura do tempo e da civilização como algo concreto na história, o aparecimento de Jesus Cristo criou na humanidade a percepção de uma nova consciência e concepção de divindade. Não é mais uma divindade no seu aspecto super-herói, nos quais deuses e mortais se relacionam como se tivessem num jogo ou numa realidade onde os sacrifícios aos deuses almejam um retorno e bênçãos imediatas e materiais.

Este novo tempo, civilização e ideia são extraordinariamente diferentes. Deus desce iluminado numa criança, o Verbo desce à Terra, que tem uma grande missão pelo mundo: plantar no crânio humano as sementes de uma vida interior que se tornaria a nova arena da experiência espiritual.  Esta concepção criou no homem a ideia de valor humano, ou seja, a santidade individual da vida humana. Distinto do juízo de uma época em que os banhos de sangue no Coliseu romano expressaram a concepção de valor sobre a vida.

Quando São João escreve no seu Evangelho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (…). Todas as coisas foram feitas por Ele (…) e a Luz resplandece nas trevas e as trevas não a compreenderam (…). Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu”. Neste trecho, a autor do Evangelho compara a criação do cosmo pelo Verbo com a missão de Jesus Cristo, o Verbo encarnado, como uma espécie de segunda criação, ou seja, Ele cria a vida interior – a esperança de uma nova forma de espiritualidade: salvar os pecadores deste mundo.

É claro que a espiritualidade sempre esteve presente no mundo, desde os tempos mais remotos. Ao que parece que naqueles tempos (hoje este comportamento ainda prevalece), os homens ignoraram completamente esta realidade, vivendo apenas para a matéria mais densa e carregada e esta relação instintual, enquanto pensamento e vontade, sendo controlado por deuses e espíritos inferiores que se relacionavam com os mortais exclusivamente para realizações no mundo e nada mais.

Ao mesmo tempo em que essa realidade perniciosa sempre existiu desde a Queda, o plano de Deus secretamente atuava na história do mundo e se preparava para sua descida. Se tomarmos conhecimento nos Evangelhos, notaremos em qualquer ato ou dito atribuído a Jesus, feitos realizados que não tenham sido prenunciado de alguma maneira em acontecimentos da vida  daqueles que vieram antes dele: nascido de uma virgem, como Krishna; anunciado por uma estrela do Oriente, como Hórus; andava sobre a água e alimentava milhares de pessoas com um pequeno cesto, como Sidarta o Buda; realizava curas milagrosas, como Pitágoras; erguia-se dos mortos, como Eliseu; ascendeu ao céu, como Enoque e Elias. E que na verdade, Deus manifestou e preparou a humanidade através de muitos homens iluminados.

Nesse sentido, a Natividade de Jesus converge numa síntese universal, conduzindo a história do mundo a este ponto: o Caminho, a Verdade e a Vida, isto é, a Consciência Espiritual Interior. Por isso que o Natal é abertura para nova consciência e paz em Cristo. “O meu Reino não é deste mundo”.

Por tudo, Jesus Cristo representa a Luz que sublima a cruz da matéria, elevando-a sua espiritualidade; é o marco e o fim, e por Ele e n’Ele se conduz no tempo e no espaço a salvação de toda a humanidade. 

Eis o Mistério da Fé. Amém.

 

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Raimundo Jerimum, última parte

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Por J. R. Braga

Leia a 1.parte, Leia a 2.parte, Leia a 3.parte,  Leia a 4.parte

Após ter enganado pela segunda vez e pondo fim a essa desventura com o diabo, Raimundo Jerimum era um sujeito que não merecia viver. Ele mesmo avaliou essa posição. Poderia ser diferente se ele se matasse, acabaria logo a angústia e o sofrimento. Não o fez por orgulho e por imaginar que passaria o resto da eternidade prisioneiro do diabo. Porém o suicídio seria um ato covarde que o eximia do senso de responsabilidade. Estava ciente de que viver era melhor escolha. Aceitava qualquer maldição que caísse sobre ele, justificaria punitivamente o crime horrível que cometeu, era merecido e não fugiria desse destino, pior que o fosse! Sabia que nada seria pior que carregar para sempre na memória o que fez; flashes perturbariam dia e noite, a cada sono: a cena dele a estrangulando. Ao amanhecer, o vizinho chamou pelo casal – era costume chamá-los para irem juntos à igreja – obteve como resposta o silêncio. Até que percebeu a porta entre aberta e pensou que algo grave aconteceu. O vizinho entrou na casa, notou o lugar bagunçado, passou pela sala e do lado ingressou à cozinha e uma porta aberta que dava acesso ao quintal, avistou Jerimum caído de joelhos e de cabeça cabisbaixa de frente à grande árvore. O vizinho assustado, indo pausadamente em direção ao quintal, chamou-o: “Raimundo…, Raimundo…, o que aconteceu, por quê estás aqui fora, cadê Martinha?” A expressão facial de Jerimum era de homem acabado, resignado, com olhos vermelhos e cansados. Não houve resposta de Jerimum, sendo apenas balançar negativo com a cabeça, acompanhado seguidamente por um choro de lamento e de arrependimento. Agachado, paralisado e transtornado, Jerimum não reagia, parecia refugiar num universo particular, distinto da realidade. A voz do vizinho ecoava em seus ouvidos com longínqua sonoridade. O vizinho correu para dentro de casa a procura de Martinha.

Em seu quarto a encontrou sob a cama moribunda, com camisola rasgada e com marcas de violência cravadas pelo corpo. Tomou um grande susto ao ver Martinha naquela condição cadavérica. Dando passos para trás sem saber o que pensar e fazer. Era inacreditável associar que aquele homem lá fora tivesse cometido um femicídio tão bárbaro e tão covarde. Os dois se amavam, pensou! O vizinho saiu correndo para fora da casa gritando: “Martinha está morta, pelo amor de Deus, nossa amada irmã Martinha está morta!”. Todos os moradores da rua onde Jerimum morava com a esposa pularam dos seus cafés da manhã. Os moradores tomaram a casa e puxaram-no para fora de seu recinto e com toda fúria permitida. Jerimum ficou todo ensanguentado e não via a hora de morrer. Não pensou nenhuma vez em fugir, ele era merecedor daquele castigo cruel. No momento que Jerimum perdeu a consciência a polícia local apareceu e interviu colocando ordem no local.

Não foi dessa vez que Jerimum partiu. Foi transferido para o presídio da capital. Recuperado, foi sentenciado a pagar pelo crime que cometeu. Diferente de outros prisioneiros que prefeririam a liberdade, conformou-se viver restrito num inferno de concreto e de grades que era o presídio de segurança máxima. Ou seja, todos lutam para sair, menos ele. Ignorava a ideia de estar numa jaula com animais, ele mesmo era um animal. Tinha ciência que não era único a cometer assassinato naquele lugar. Aos dias corridos à prisão, sua adaptação não era das mais tranquilas. Apesar da ciência da punição pelo crime, não o colocava em pé de igualdade a outros detentos, era apenas mais um e nada mais! Vivia num inferno pior do que aquele que ele seria levado. Enfim, os dias de Raimundo Jerimum estavam contados.

Num dia relativamente tranquilo como outros dias passados, todo corpo policial sabia que algo estranho viria. Quando a tranquilidade é demais, desconfie! A percepção estava corretíssima. Todo presídio se iguala a um vulcão em atividade, uma hora explode. Foi o que aconteceu. Uma rebelião que fugiu do controle, acuando policiais e prisioneiros inimigos de facções rivais. O inferno mostrava a sua verdadeira face. Era macabro; a morte era inalada; delinquentes, com sede de sangue e vingança, aproveitaram para tocar o terror: aprisionaram, torturaram e mataram. A certa altura da rebelião, a barbaridade humana chegou a níveis intoleráveis de desumanidade. Como no matadouro, os delinquentes começaram a esquartejar outros delinquentes rivais; dilaceraram o corpo em vários pedaços, intimando a força brutal os prisioneiros rivais a comerem olhos, testículos e dedos. As cabeças eram degoladas a facão e empaladas em barras de ferros. Raimundo Jerimum foi vitima da ferocidade e da crueldade bestial dos homens. Sua cabeça foi arrancada e jogada brutalmente aos abutres e o restante de seu corpo retalhado, espostejado.

O corpo despedaçado de Jerimum voltou para sua cidade natal. A hostilidade ao defunto foi imensa, nenhum cemitério local aceitou enterrar, muito menos uma solenidade fúnebre. Na imaginação popular, o mais intrigante, e o que mais assustava as pessoas, era imaginar que um cadáver fatiado, que em vida protagonizou um assassinato que abalou a pacata cidade interiorana, foste encontrado sem sua cabeça, estaria sendo enterrado ao lado de mortos queridos. Ninguém aceitaria uma profanação assim. Era como se tivesse enterrando uma maldição no quintal de casa. O mais chocante era o cadáver de Jerimum sem cabeça e todo cortado como fosse carne bovina sendo exposta numa vitrine dividida em partes no frigorífico de um supermercado. Sua cabeça segundo relatos nunca foi encontrada.

Enterrar um sujeito com essas peculiaridades era como enterrar algo sem alma, algo sinistro de se ver e de se lamentar.  O coveiro tinha a dura missão de levá-lo para bem longe da cidade.  No meio do caminho, o cadáver lacrado no féretro simples de madeira sendo conduzido por um carrinho de mão em direção à margem do rio onde se atravessaria à outra margem, o coveiro começou a sentir que algo o acompanhava e o vigiava. Pela primeira vez, depois de anos de experiência enterrando os mortos da cidade, sentiu medo; um calafrio que subiu a sua espinha dorsal. Inesperadamente, o carrinho de mão emperrou num jerimum, lançando a caixa mortuária ao chão. O impacto fez abrir o caixão e derramar as partes.

O coveiro não disfarçava o medo, queria se livrar apressadamente desse infortúnio porque a tarde logo se sucumbiria pela noite, o incidente era tudo menos que esperava acontecer, agora teria de juntar pedaço por pedaço, o formol ainda o mantinha em conservação e que não duraria muito, mas um cheiro pútrido começava exalar, precisava prontamente ser enterrado. O estômago rebuliçando, juntou os pedaços e devolveu aleatoriamente para dentro do caixão, mas a sensação que alguém o observava era cada vez maior. Ao recompor as partes para o mortuário, alguma coisa lhe causou incômodo: a falta da cabeça. O medo e a estranheza em estar diante de um morto esquartejado e sem cabeça o fizeram vomitar. Não era uma cena agradável e embolava o estômago mesmo. O coveiro não tinha mais dúvida, desistiria de atravessar o rio. Certificou se alguém não estava por perto, começou a cavar uma cova ali mesmo, não muito longe da cidade.

No processo de escavação, a temperatura caiu, sentiu uma brisa leve e fria e uma voz ecoou nos seus ouvidos: “Cadê minha cabeça?” Subitamente, o coveiro girou e não viu ninguém. O medo aumentava e precisava terminar o serviço, pois a noite se aproximava. Foi quando avistou um fruto de jerimum, não o esbugalhado pelo carrinho de mão, mas um de considerável tamanho, o que o fez lembrar-se da sua fama de agricultor de jerimuns gigantes. Apanhou o jerimum, tirou de seu bolso uma faca e desenhou um rosto feliz; sob o sinal da cruz, guardou dentro do féretro mortuário preenchendo simbolicamente a cabeça perdida de Raimundo Jerimum. Terminado o serviço, Jerimum foi enterrado como indigente, em lugar ignorado, sem identificação e para que nunca o achassem. Enquanto isso, a voz estranha persistiu com mesma pergunta. No fundo imaginava que era ele querendo assombrar. O coveiro abandonou o local, saiu correndo de lá.

A cidade nunca superaria o trauma dessas tragédias; nascia no âmago da consciência dos moradores os medos mais temíveis e temerosos. Passado uma semana do seu fatídico enterro, pescadores relataram vozes de lamento, com o tom sofrível e amargurado. Disseram ter enxergado durante a noite um feixe de luz sob as águas do rio acompanhado de lamentações. O nome de Raimundo Jerimum mal era falado, era proibido, trazia mau agouro e azar. Foram milhares de relatos semelhantes que rapidamente correram em informação a outras cidades adjacentes. Navegar por àquelas regiões tornou-se assustador, principalmente a noite. E já estava na boca popular, a cidade de Jerimum começou a ser vista como amaldiçoada. A casa de Jerimum foi interditada pela prefeitura local; estava abandonada desde então, poucos arriscavam passar por ela. Porém, alguns malucos escondidos vindos de outros lugares entravam na casa e faziam rituais satânicos, oferendas etc.

Segundo contaram as diversas más línguas que a misericórdia dos Céus não se aplicou a Jerimum e nem o inferno o aceitou, condenando-o a vagar pela terra, cumprindo-se a praga que o diabo anteriormente lançara. O inferno o amaldiçoou a carregar no lugar da sua cabeça o fruto de jerimum e dentro um fogo efervescente. O objetivo era tanto amedrontar as pessoas quanto lembrá-lo constantemente da sua maldição. A maldição com o tempo trouxe algumas benesses à cidade. A cada período da vazante, começaram aparecer jerimuns gigantes, ao mesmo tempo os relatos sobrenaturais das aparições de Jerimum tornaram-se diário. Não foi à toa que Jerimum acabou virando santo popular, mas para uma maioria das pessoas não e nem fazia sentido, contudo para outras poucas sim e não escondiam suas simpatias ao invocar e prestar culto ao santo Jerimum.

Ainda hoje, Jerimum vaga a procurar de sua cabeça.

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Raimundo Jerimum, parte 4

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Tentação de Santo Antônio de 1962, autor : Gilvan Samico

Por J. F. R. Braga

Leiam as partes 1, 2 e 3

Parte 4

Chorando muito, com muita indignação e a raiva tomando o seu ego, Jerimum não estava acreditando, parecia viver um pesadelo; nem sequer imaginava o assassinato, covarde que foi, tinha saído de suas mãos. Olhava o rosto e o corpo moribunda de Martinha em seus braços, beijando-a nos lábios igual uma boneca inócua e fria, esperando apenas que estivesse desfalecida por alguns míseros minutos, como a branca de neve que acordaria do desespero e da agonia. Ele balbuciava aos prantos naquela hora tarde da noite, lamentando aos céus a perda trágica da pessoa que mais amava no mundo.

Ao mesmo tempo em que se remoía e se deplorava a consternação e a desolação da dor e do desgosto, a cada segundo que passava, a fúria de Jerimum iniciava sentir o cheiro de morte, de sombra e de ódio. Suas palavras questionavam a natureza das prioridades, dos acordos e dos negócios, chegando a pensar que preferiria a sua morte a de Martinha. Sabia no fundo que estava diante da verdade, sobre ele? Ainda não poderia responder, mas fugir do fato seria pusilânime. Podia correr que fosse, esconder-se, nunca se ocultaria da vergonha aos olhos de Deus.  Porém acusar é a ação mais fácil de encontrar a mentira, alimentá-la. Jerimum disse gritando, gesticulando como fosse bater, mesmo sendo o ar, sem se importar se acordaria a vizinhança: “- De jeito algum permitirei que me leve, seu miserável! Esse não foi o trato que fizemos. Seu invejoso, sabias que perderia, não aguentou a felicidade humana. Seu impostor, filho da puta, lascivo da porra!”  Toda a sua expressão mudou radicalmente, incorporando, desde as entranhas, o sentimento colérico, misturado ao desejo de destruir e de se vingar. Não tinha absolutamente nada a perder e nada o prendia, cobiçando expurgar de vez essa entidade maligna. Por enquanto, Jerimum não acataria prontamente a designação do diabo, simplesmente via nele o culpado pelos infortúnios, pecados e maldades. Contudo, era o que o capeta queria, arvorava-se da bestialidade humana.

Por sua vez, o diabo conhecia profundamente o gênio de Jerimum, nunca o enganou; crer que ele mudou realmente, só os incautos escorregavam no maniqueísmo e na ludibriação do homem que verdadeiramente nunca mudou. Ironicamente, o diabo falou: “Por que estás desesperados, Jerimum? Não estou nem um pouco. Lembras que me enganastes? Realmente fizemos o trato. Quem infringiu primeiro? Eu não fui. Sabes quem sou? Pois é, mentir, enganar, espoliar… Ingenuidade tua, ter fé em mim!” Como promotor de acusação, o diabo continuou com um tom mais incessante : “Que culpas, tenho? Quem escolheu beber não fui eu, o livre-arbítrio era seu. Todavia, tinha certeza que aconteceria. Jerimum, tu és um dos meus! Não fui eu que matei, quem realizou o crime? Você, Jerimum! Assassino! Jerimum, Assassino!”   

Porquanto o escutava desesperadamente, aquela euforia se desencantava paulatinamente em mea culpa; milhares de pensamentos o atormentavam e o efeito da cachaça esmiuçava. Suas mãos tampavam os ouvidos a cada acusação do inquisidor infernal.  “Pare, pare, não aguento mais!” dizia chorando como criança, Jerimum. Desejava nunca mais abrir seus olhos, viver eternamente num sonho. Era incapaz de apagar da mente o homicídio; não escaparia ao castigo tanto dos homens quanto de Deus. O destino era inevitável, a dor mais ainda. O corpo da sua amada era um cadáver repousado na sua cama e gradativamente ia se convencendo da autoria do crime.

Agora faria menos sentido ainda querer estar vivo. Convencia-se a cada instante a expropriar a própria vida, ou seja, entregar-se-ia como troféu, nem relutaria, nem algo parecido, aos desígnios do diabo.  O sofrimento dele era similar ao oceano num balde que nunca parava de derramar. A sua cabeça era um turbilhão de sensações suicidas, não enxergava outro jeito senão oferecer sua alma ao diabo. Sugeriu a ele a sua morte por enforcamento num dos galhos de uma gigantesca, linda e sagrada árvore, a grande sumaúma, conhecida como barriguda, perto das margens do rio que banhava a cidade, destacava-se por ela atingir setenta metros de altura e aproximadamente três metros de diâmetro; era a mãe e protetora da floresta, suas raízes chamadas de sapopembas eram superficiais e podiam cobrir um raio de mais de trezentos metros; um exemplar dela ficava perto da sua casa, local privilegiado onde todos poderiam ver o seu cadáver esticado por uma corda ao redor do pescoço como sinal de arrependimento.

O diabo gesticulou positivamente. “Seria interessante vê-lo pendurado nas alturas”, pensou. Lembrou Judas que traiu Jesus e se enforcou na árvore-do-amor, e ficou conhecida como árvore-de-judas, diferente da barriguda, possuía apenas quinze metros; no final gostaria que ela ficasse conhecida como “árvore-de-jerimum”; o diabo sempre buscando tirar proveitos para profanar o que é sagrado para natureza e para os homens. Por isso a sugestão veio com muito agrado e perversão. Adorava o estado perverso do homem, os demônios se nutriam e se fortaleciam com tamanha fartura.  O demônio satisfeito disse: “é chegado a hora, são quase três da manhã, a hora macabra, temos de nos apressar, logo amanhece.  Vamos por um fim nesta aflição, nesta dor; reconhecer a culpa e quanto desagradou a todos por aqui, é um passo para não merecer mais esta vida. Sabes que se optar por algo diferente que estou a dar ficará o resto dos dias preso, com o remorso e vergonha, deprimido e carcomido, escondido  e oprimido nas sombras. Acabou, Jerimum!” São palavras que um dia irão lhe acompanhar.

Cabisbaixo, arrependido, os olhos vermelhos deflagrados do choro mostravam a fisionomia contrita de Jerimum. Pegou a corda e a faca, que eram utilizadas cotidianamente para subir em árvores ou usadas para prender no canto ao outro a rede de embalar. Caminhando em direção à sumaúma, carregando os utensílios básicos de subsistência com a finalidade de consumar o suicídio, no percurso, uma crepitação sobrenatural reverberou na sua consciência que podia se aproveitar da circunstância e tentar enganar novamente o diabo. Agir e pensar rápido. O semblante do rosto mudaria para uma seriedade sarcástica, mas o coisa-ruim não o percebeu, e pensou consigo: “Ele não escapa, darei um fim nele; usarei o conhecimento da floresta que aprendi com Martinha.”

O convívio com a esposa ensinou a ele os mistérios que a floresta oferecia; ia desde chá, curas até os encantos e as magias. A relação do interiorano com a floresta é muito íntima e coexistente, onde o real e o fantástico se mesclam. O diabo não conhecia as propriedades mágicas que a barriguda inerentemente carregava e nem tampouco suas sapopembas longas serviam de canais de comunicação com a os animais, vegetais e espíritos da floresta. Próximo às três horas da manhã, Jerimum espertamente pergunta: “Se eu subir vai demorar um pouco para chegar naquele galho. E para agilizar o tempo, que tal amarrar a corda naquele galho pra mim, parece ser galho firme e resistente?”

O diabo observou e não demonstrou nenhuma desconfiança e concordou. Não houve esforço algum, no piscar de olhos, o diabo estava no galho e amarrou a corda, certificando que estava segura e que não arrebentaria. À medida que o diabo arrumava a corda, Jerimum executava um segundo plano – uns “paranauês” encantados; um ritual esquisito. O diabo lá de cima perguntou surpreso: “Que diabo, tu estás fazendo?” Concentrado e despistando-o, Jerimum respondeu: “Estou me preparando para me matar. Despedindo-me deste lugar e de tudo que amo.” Deu uma pausa, junto a uns movimentos estranhos e continuou olhando atentamente para cima em direção ao diabo e disse com toda confiança: “…E de você também e nunca mais atormente ninguém!”

Simultaneamente, Jerimum bate com a mão fechada, dando-lhe três batidas numa sapopemba. Na hora as batidas ecoaram por toda a floresta; esse segredo ritualístico pouquíssimas pessoas sabiam, e só poderia ser aproveitado quando fosse para alertar a Mãe-Natureza contra o perigo e a consequência de imediato era a defesa contra o invasor mal-intencionado. O diabo estava sendo enganado pela segunda vez e assustado por sentir a sua base ser revestida por galhos e seu espectro corpóreo se paralisava. Naquele mesmo instante, Jerimum arranhou com a faca o tronco da barriguda, desenhando uma cruz, com a intenção de garantir que o diabo ficasse prisioneiro até o dia de a árvore deixar de existir. Enquanto isso acontecia, a estrutura disforme do diabo desaparecia, sendo preenchida com galhos que o entrelaçavam e proferiu suas últimas palavras, com um tom profético, falou agoniadamente: “Não acredito que me enganastes de novo, não terás paz até o fim dos seus dias, nem mesmo depois de morto, não conseguirás descansar, irás vagar. maldito seja, Assassino!”

Já eram um pouco mais de três da madrugada. O diabo estava condenado assim como Jerimum. Ambos, ele tinha certeza que se definhariam nas suas prisões. Olhando previsivelmente ao casulo do maligno; os galhos justapostos formaram um contorno grotesco de tronco. E ao amanhecer foi encoberto por frutos e flores.

A jornada de Jerimum ainda não terminou. Se não fosse a polícia local, ele seria espancado até a morte. E foi jogado como animal na prisão da capital. O que acontecerá com o nosso anti-herói na prisão?

A  5 e última parte em breve

Leiam as partes 1, 2 e 3

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Raimundo Jerimum, parte 3

casamentoPor João Fábio Braga

Leia a primeira parte aqui, e a segunda aqui

Parte 3

Depois de quase um ano, Jerimum era outra pessoa. Estava cumprindo a promessa; pequeno deslize que fosse quebraria o pacto e nenhum recurso adiantaria, restaria apenas acompanhar o malfazejo no fogo condenatório eterno. Nem passava pela sua cabeça retroceder. Fingia esquecer. Mas não, era vigilante com as próprias atitudes; sendo correto e direito, o diabo nem meteria as caras! O pacto diante dessas circunstâncias era letra morta e inválida até que se cometasse alguma ilicitude.

A vida de jerimum tornou-se digna para quem já teve uma vida desgraçada. Os holofotes não faziam mais parte do seu repertório cotidiano, dava graças a Deus, o sucesso não tinha feito bem a ele nem tampouco as consequências. Nunca foi um homem religioso, apesar da educação evangélica, virou um crente frequente na comunidade, onde prestava constantemente o testemunho em torno do hilário episódio com o diabo.

Lembrara que no dia que retornava a sua cidade natal, ninguém notou sua presença e passou despercebido ao mercado local. Sua aparência não era das mais agradáveis, o jeito maltrapilho e o odor horrível afastavam as pessoas, nem imaginavam está diante de um dos seus, mas preferiam relacionar a um nômade à procura de comida e abrigo. Jerimum sabia que estava pagando por seus pecados, não seria fácil sua reabilitação e nem mesmo o seu recomeço, uma vez que perdeu tudo na última enchente. Os parentes que restavam não residiam na cidade, estava só e à deriva. A solidão viria a mudar e para muitos a sorte não bate duas vezes no mesmo lugar, Jerimum sentiu-se abençoado!

Toda essa felicidade se resumia numa mulher chamada Martinha. Ela não era bonita, também não poderia dizer que era feia, mas a força de mulher dela não estava na beleza, mas no conhecimento dos encantos da floresta, muito comum no interior. Ela era uma mulher de coração enorme e muito temente a Deus; era nova na cidade, veio acompanhada de uma tia. Ela o encontrou próximo a sua casa, sentindo frio e fome. Seu espírito acolhedor e como se tivesse cumprindo um dever cristão o levou à casa de abrigo para ajudá-lo.

Noutro dia ao visitá-lo, encontrá-lo-ia diferente do que encontrou. Inesperadamente os dois se olharam com ternura e a partir daí o amor entre eles começou. O amor opera milagres. O amor por Martinha recuperou a força e a vontade de recomeçar a vida, menos de um ano estavam casados. Tornou-se temente a Deus, voltou a trabalhar em hortaliças, realizava caridade junto à esposa, com ela aprendeu os segredos das matas, e, o mais importante, reconquistou o respeito da cidade.

Entretanto, a tranquilidade que ocorreram as coisas o fez desperceber ou não aprendeu que toda tranquilidade pode vir acompanhada de desconfiança. Ele estava certo que, durante um ano completo àquele evento, ficaria livre do pacto, assim como o diabo honrou com sua palavra ao se tornar uma moeda, honraria com o trato, pensava. O problema do pacto era com quem havia negociado o trato. Sujeito nada confiável. O diabo foi enganado, humilhado, execrado a ponto de ser cômico, bastava a chacota que nunca cessava nos círculos infernais.

Pensara secretamente que não deixaria barato, ia se vingar.  Descumpriria o trato, sempre descumpriu ao longo da história da humanidade, não era novidade. Levar a alma de Jerimum, agora, era questão de honra e não mais de diversão. O seu desejo era vê-lo humilhado, pedindo e implorando misericórdia; ao mesmo tempo, outro desejo muito mais cruel alimentava a sua mente: aflorar novamente a maldade dentro dele. Como arquitetaria essa maldade, diante da mudança sincera que vinha desenvolvendo, travando uma batalha desnecessária com os anjos do Senhor, maquiavelicamente refletia? A conclusão que diabo chegou era atingir dolorosamente o sentimento de Jerimum à amada Martinha. O diabo provocaria um grande teste com ele: induziria à loucura ou se manteria no caminho de salvação. Tinha certeza que a perda da amada faria cair em desgraça.

O ano inteiro se passou ao evento do bar e ao trato, Jerimum sentiu-se livre. Naquela amanhã acordou satisfeito por uma jornada completa. Sentia-se o homem mais feliz do mundo. Pensou – “não seria nada demais beber um pouco para comemorar a vitória contra o diabo.” No armazém mais próximo, comprou uma garrafa de vinho e trouxe p’ra casa e convidou a sua esposa a sua comemoração. Ao contrário, ela ficou surpresa, desde que o conheceu não tinha o visto beber, sempre o demonstrou um cara a verso a esse tipo de prática. Ela nem mesmo sabia de que era a sua comemoração; não era aniversário, ou alguma data especial; nem mesmo bebera na festa de casamento. A expressão facial de Martinha foi a de desaprovação do marido e o intimou: “se quiseres continuar a beber, por favor, faça fora da nossa casa.” Seu organismo havia se desacostumado com o álcool, o que permitiu que ficasse bêbado rapidamente. Não logrou sair de casa, instalou-se titubeadamente no armazém, conhecido como barracão do José, onde outros iguais, ao estado que se encontrava, estavam.

Todo o esforço de um novo homem estava sendo jogado no lixo. Dizia com orgulho aos seus iguais que a sua comemoração não era em vão: o triunfo contra o coisa-ruim, acreditando fazer inveja a Dom Quixote que derrotou apenas dragões. Pouco importava o conteúdo relatado àquela hora, bêbado queria beber. Alguém se importaria, com alguma racionalidade, o que bêbado tem a dizer? Entre eles, muito menos! Do entusiasmo ao falso heroísmo, a vaidade e o orgulho eram componentes que nunca dissociaram dele, desde a época dos jerimuns gigantes; estavam latentes à personalidade, nunca foi superado. O homem daquelas terras pareciam se engrandecer com muito pouco, como se não houvesse amanhã. O imediatismo era filosofia dos finais dos tempos, em que toda expectativa girasse numa falsa ostentação, num hedonismo a todo custo. Lá se iam uma, duas garrafas… Assim que o diabo gostava.

Ao retornar a sua humilde residência cambaleando, tarde da noite, comum do interiorano se recolher cedo para dormir, Jerimum encontrou à mesa à janta e no quarto sua caridosa esposa, cansada de tanto o esperar acabou dormindo. Sem medir as horas e a responsabilidade de marido, não hesitou de perturbar desagradavelmente o sono de Martinha que acordou espantada e sem entender o que estava acontecendo, nem demorou muito recobrar a consciência.

Bêbado, Jerimum cobrou dela o papel de esposa. Ele estava irreconhecível, e ela assustada; pediu com um tom trêmulo de medo que saísse da casa, senão chamaria a polícia. Não ouviu, não quis saber, partiu para cima dela, com o poder desproporcional ele a apanhou e rasgou sua camisola; ela ficou sem ação e nada ao seu alcance para resistir, contorcia-se com a esperança de poder fugir daquele monstro. Terrivelmente a jogou na cama, desnudada pela tirania do esposo bêbado, que a bofeteou duas vezes em resposta a tentativa de fuga e da mordida em seu ombro. Uma das mãos de Jerimum fechou sua boca e parte do braço afogou um dos braços dela, com o escopo de não permitir que gritasse e se soltasse; a outra mão que instantaneamente oprimia tanto para desbotar sua calça quanto para impedir movimentos do outro braço.  Martinha lutava com toda força e contra toda violência, chegou a pensar que a casa tinha sido invadida por um homem estranho, mas na verdade era o próprio marido, o estranho, o horrível, possuído pelo demônio.

Na agonia pedia a Deus que tudo terminasse, não queria morrer. Jerimum estava fora de si, mesmo bêbado considerou que conseguiria fazer sexo com a esposa e que ela consentiria, mas não. Foi o que levou à maldade. Finalmente, a tragédia se consumia; estuprada e estrangulada, Martinha era um anjo de mulher que não merecia a ferocidade do desequilibrado marido. Cada homem parece carregar escondido outro homem, que na má intenção é capaz de desarmonizar o universo, por causa da faceta cruel da humanidade que recair sobre o mesmo homem que – sem moral e seus escrúpulos – acredita – fazem valer a sentença que o crime realmente compensa.

O diabo atento e vocifera lentamente: Jeri…mum! Jeri…mum! Jeri…mum! Desnorteado, Jerimum procura obliquamente por essa voz tão terrível quanto o crime que cometeu e não se lembrava de ter escutado essa voz com ruídos e gutural antes. E o ser das trevas continuou: “Bravo, bravo, acaba de matar a sua amada esposa!” Como no instalo de consciência retomou a realidade e o medo se inspirou na alma quando deu de frente à materialização de quem ele menos esperava. Logo o desespero bateu quando viu sua amada esposa paralisada, nua, com marcas de violência pelo corpo e sem pulsão, caída na cama. Segurou-a nos seus braços, lamentando e chorando muito – “Meu Deus!, Meu Deus, digas que não foi eu. Martinha, meu amor! O que fizeste com a minha amada, cão!?” Era tarde demais, o diabo estava pronto a levá-lo ao inferno. Jerimum não se convenceu que ele cometera o crime; não acreditava na acusação do diabo; decidiu culpá-lo pela tragédia e não aceitaria ir com ele a nenhum lugar.

Em breve a quarta parte.

Leia a primeira parte

Leia a segunda Parte

 

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Conto da Véspera dos Dias de Todos os Santos – Raimundo Jerimum, parte 2

raimundo jerimum3

Por João Fábio Braga

Leia a primeira parte aqui

Parte 2

O diabo apareceu e sentou-se ao lado de Jerimum e disse: “Hoje levarei a sua alma, sabe, ela me pertence. Não quero correr o risco que venha a se tornar uma pessoa boa, se extraviar do caminho do mal”. E Jerimum, espantado, mesmo bêbado, como era de costume, foi cauteloso, respirou fundo e falou: “Calma-te, agora que pedi uma bebida. Convido a beber comigo.”

O diabo concordou, pensou: havia tempo! E pelas suas contas de milênios, quase nem se lembrava do seu último gole de cachaça. O que mais curtia era estimular os filhos de Deus a pecar, embriagar era detalhe, quase um hobby. Como ser imperfeito que era, não resistiu a tomar uma, uma não, todas! Mal sabia ele, estava entrando numa furada, Jerimum tinha intenções de enganá-lo para escapar dos desígnos de outro mundo. Sabia que, com o diabo ninguém se brinca, naquela altura tanto faz como tanto fez, era tentar, já estava na merda mesmo. Animado, deixou-o beber à vontade.

O bar era na verdade uma taberna que se vendia quase tudo: de especiarias a Torxilax. A entrada se confundia à garagem e encontrava-se ao lado do balcão que estava defronte à calçada. Estranho que as mesas e cadeiras estavam organizadas caoticamente na rua e nem fazia diferença às pessoas está ou não, até a sarjeta tornou-se o assento para quem nem se importa o quê beber, beber até cair! O diabo e o Jerimum, sentados face a face, encostados ao balcão, pareciam estar numa disputa quem levantava mais o copo. Após um longo período de ardiloso papo de bêbado – que não vale apena mencionar devido à transcendência a graus etílicos – os dois se semelhavam a velhos companheiros e veteranos de guerra.

Adiantada hora, a dona do bar, irritada, grosseira de sempre e com toda razão, queria expulsá-los porque os dois não tinham hora para parar. O diabo, bêbado, recobrou a memória e disse: “Está na hora, continuamos a beber no inferno.” O espanto tomou conta da alma de Jerimum, mas não esqueceu da execução do plano, podia dar errado; o certo dependia de fatores que pudessem contrariar o obsequiado diabo. Propôs a saideira, a dona do bar não gostou, tranquilizou-a dizendo que podia fecha tudo e dormir, contanto que o último trago de cachaça coroasse a madrugada e a conta por esses últimos dois copos fossem do diabo, já que estava sem um puto a mais de dinheiro.

O diabo não acreditou e deu de desdém a essa audácia. Jerimum o lembrou: era costume local não fugir da saideira, uma espécie de obrigação moral de não desdenhar às gerações predecessoras da fé etílica, uma ofensa à história do álcool, que muito bem o diabo conhecia e tinha um grande orgulho de seu feito. Sua indignação contrariava aquilo que tanto defendia e quanto prazer sentia ao manipular alguém. Jerimum explorava essa retórica a ponto de convencê-lo aceitar. Porém sua recusa ia mais além do que qualquer reserva moral; moral, ele tinha? Nenhuma. Tudo que ia contra a moral e os bons costumes, o “dedo” dele estava no meio.

Surpreendentemente, encontrava-se sem um tostão para bancar o derradeiro pedido. Patrocinar o ódio e a discórdia, o diabo operava com maestria, por isso mesmo sentiu desonra e vergonha, pois passaria ideia de ser fujão, um covarde ou outros adjetivos semelhantes. Mesmo assim, parte da consciência dele se dizia contrária à sugestão. “Então, o que quer que eu faça para resolver esse imbróglio?” Disse relutante o diabo.  Jerimum percebeu a inquietação do diabo, deduziu acertadamente que nenhum troco possuía. Finalmente, intuiu que chegava o momento mais aguardado e logo se veria livre desse encosto e pronto a retornar a antiga vida. Sem medo e com espírito intimidador, como se tivesse construindo uma emboscada, de fato era, Jerimum, ao modo de burlador, questionou ironicamente: “se você é o que sempre diz, em qualquer coisa pode se transformar, não é?” O diabo pensou e respondeu: “claro que sim, transformar, no sentido negativo ou que leve as pessoas se afastar de Deus, é o objetivo primordial. Caso não notou, você é o sujeito interessante. Na minha lista o tenho como um dos preferidos:  era simples, bom; a fama o corrompeu, não soube lhe dar com ela; o teu rosto se desconfigurou; tuas atitudes se tornaram perversas. Eu estava te ajudando a mudar. Eis a transformação!”

O diabo nem imaginava onde Jerimum queria chegar, não tinha capacidade ou habilidade de saber o que interiorano pensava. Somente Deus acessava os pensamentos e o diabo assoprava os ouvidos, com a intenção dos homens pecarem. Com um tom de provocação, Jerimum lançou a proposta: “Agradeço a consideração. Que tal se transformar numa moeda, afim que eu pague com ela a saideira e em seguida retorne para terminarmos de beber?” O diabo desconfiado, observou-o e nos seus pensamentos veio a seguinte sentença: “quem acredita que engana o diabo, acaba despercebendo que pode ser enganado”. O diabo pensou e chegou a conclusão: “Se Jerimum se acha esperto, serei mais ainda; aparecerei em qualquer lugar, qualquer hora, e levarei sua tortuosa alma de qualquer jeito.” Aceitou em se transformar em moeda, sabia ele que retornaria facilmente e recobraria a ideia de que ninguém pode enganá-lo.

No instante, como mágica, o ser maligno se reduziu a se materializar numa moeda; ela rodopiou até parar sobre o balcão. Estático, inacreditavelmente, Jerimum ficou. Não demorou e pensou: “é a minha chance e não posso desperdiçá-la.” Puxou do bolso uma carteira surrada, apanhou a moeda e colocou dentro. Os dois copos de cachaça da saideira, ele próprio tomou e não quis nem saber e saiu discretamente sem pagar. No interior da carteira, havia um feche com formato de cruz e lá se encontrava guardada a moeda. Isso significou a morte! Jerimum enganou o diabo, um acontecimento histórico! A frustração e o desespero do diabo tomaram conta do seu ego; assaltaram sua convicção e confiança. Sob o pé da cruz seria o mesmo que própria cova.

Diminuído, fragilizado e humilhado, o diabo – preso – chegou o nível de implorar de joelhos que lhe tirassem dali. Durante semanas foram assim, Jerimum comparava essa situação a um poder inimaginável que tinha nas mãos. Cansado dos lamentos, gritos de desespero, resolveu negociar. Esperto, propôs: “eu o tiro daí, com uma condição. Se durante um ano eu não mudar para melhor, irei sem hesitar.” O diabo retorquiu: “durante um ano haverá uma trégua, caso não mude, após o prazo vou vir te buscar.” O diabo continuou: “estamos fechando um pacto, certo?” Jerimum, que já estava bêbado, acenou positivo com a cabeça. “- Trato feito! Por ocasião, me tire daqui, né!” firmemente disse o diabo.

Jerimum o libertou. Desde esse evento, resolveu voltar a ser uma pessoa direita e o prazo estipulado logo acabaria, tinha certeza que triunfaria por conseguir a meta. Todavia, contudo, o diabo nunca foi confiável, a mentira sempre foi combustível para maldade. Ele estava preparado para se vingar. Jerimum, ingenuamente, nem imaginava o que estaria porvir.

Em breve a terceira parte.

Leia a primeira parte

 

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Conto da Véspera dos Dias de Todos os Santos – Raimundo Jerimum

morte

Por João Fábio Braga

Parte 1

Raimundo “jerimum” assim era chamado por muitos. Era um simples homem, caboclo, agricultor e pescador, cuja identidade era alinhado atividade de subsistência, comum do interiorano amazônico. O apelido fazia jus à sua fama, porque numa determinada colheita de suas hortaliças, aproveitando das circunstâncias ambientais como o nível baixo dos rios, tendo menor impacto nas áreas de várzea, o que pode ter facilitado o aparecimento de jerimuns de tamanhos anormais, variando de 16 quilos a 23 quilos. Porém o mais impressionante estava num único jerimum, com mais ou menos dois metros e trinta centímetros de diâmetro e quase duzentos quilos. O feito da natureza ganhou destaque na mídia local e nacional, Raimundo concedeu muitas entrevistas, mostrava as fotos junto aos gigantes jerimuns e não custou muito associarem a hortaliça ao seu nome. Nunca chegou a imaginar um feito como esse, nunca procurou. A cultura produtora do lugar que vinha, estava longe de ser uma empresa de agronegócio, era mais uma cultura que valorizava o próprio sustento. Talvez por essa razão, a fama entrou de forma descontrolada na vida de Raimundo.

Era um verdadeiro admirável mundo novo. Chegou a ser orgulho para sua pequena cidade. A fama levou Raimundo à capital, um sonho de criança sendo realizado e lá iria, como em outras oportunidades, contar num canal de televisão à vida de um homem do interior e do seu jerimum gigante. Toda essa história não mudou em nada a vida de Raimundo, cheia de empolgação e imprudência. A capital, nem de perto era Liverpool, mas uma cidade de costa para o rio, com requinte de uma cidade soberba de exageros de querer ser o que não é, o que é típico dos trópicos, e nela acolhedora de sempre, Raimundo a toda solidão possível, dois mundos desatinados que se entrechocam, não parece mais ser o mesmo. A face dele ficou, pouco a pouco, irreconhecível, era tão nítida a transformação que ninguém mais se lembrava do homem que tinha ido a programas da tevê, infelizmente, com todo pesar, tornou-se fracassado e grosseiro.

Soube que, depois que a fama deu uma acalmada, a casa, a plantação de hortaliças foram inundadas, até a família desapareceu. Perdeu tudo. Sem dinheiro para retornar, desesperado, com dívidas acumuladas, percebeu o erro, que tragou de uma vez, de esquecer da sua roça, do seu canto particular e de toda sua natureza em volta. Dia após dias, voluntariamente, Raimundo se esquecia de tudo e de todos, se alcoolizando todo santo dia, virou alcoólatra e dependente de outras drogas. Também não podemos deixar de mencionar que ele veio se tornar um sujeito miserável, imprestável e de todo mau. A cidade o sugava e ele sugava a cidade. Como  velho ditado dizia: cabeça vazia é oficina do diabo. Era realidade inegável para quem foi ao céu e despencou, espatifando como geleia na terra.  Quanto mais alto se vai, maior o tombo, assim dizem as pessoas às pessoas não humildes.

O desespero é estado de morte que requer atenção por parte do viciado, pois vive-se o instante, um verdadeiro convite, o beijo desesperado de morte. Raimundo sabia e tinha certeza que a alucinação era única capaz de  superar ou apagar, mesmo por momentos, a visão do próprio inferno, da quimera, do abismo e da fantasmagoria. Não por muito tempo sabemos. E o ciclo recomeçava.

O diabo a par de sempre da situação, como bom observador, sempre observou atentamente Raimundo desde que era criança, e planejava prazerosamente os testes que seriam aplicados dependendo das circunstâncias ou do pecado. As maldades que Raimundo cometia, o diabo ria e se divertia, desejando que viesse logo morrer para morar no inferno de uma vez por todas. Enquanto as pessoas lamentavam o seu estado, o diabo estava convencido de levar a alma de Jerimum, muitos começavam a chamá-lo, com reservas, desse jeito. Numa determinada noite no centro da cidade, no bar da Dona Orminda, que curiosamente ela era “Mãe de Santo” ou macumbeira, o que isso importa! O diabo apareceu e sentou-se ao lado de Jerimum e disse: “Hoje levarei a sua alma, sabe, ela me pertence. Não quero correr o risco que venha a se tornar uma pessoa boa, se extraviar do caminho do mal”. E Jerimum, espantado, mesmo bêbado, como era de costume, foi cauteloso, respirou fundo e falou: “Calma-te, agora que pedi uma bebida. Convido a beber comigo.” E o diabo concordou.

Continuação parte 2 em breve

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As Três Peneiras

tres peneirasNo mundo bombardeado de informações de todas as formas, parece ser difícil descobrir com quem está a verdade. Pesquisar as fontes, identificar os discursos e nela a (in)coerência, a lógica ou simplesmente os ufanismos que pregam a categorização  de uma determinada retórica, são maneiras de encontrar algum sentido naquilo que se propõe defender o certo do errado.

Acontece que a desonestidade intelectual virou prática rotineira, exatamente para atender a conveniência ou a bandeira ideológica da qual se prega. É ou não é. Que lado está? O problema não é o lado a se posicionar. É está acima desta polarização mesquinha de categorias pseudo-acadêmicas que predeterminariam a qualidade política do indivíduo.

Em seu em ensaio “Verdade e Política” de 1967, Hannah Arendt dedicou-se a investigar como os fatos históricos geralmente são distorcidos quando politizados. Exclusivamente quando são usados como ferramentas para justificar decisões políticas específicas e a manipulação dos fatos e opiniões. Claro que Arendt não desvendou essa característica humana, na qual as mentiras sempre desempenharam um papel importante na história e na política mundial. A novidade em relação a tudo isso é somado às mídias, à tecnologia em rede, o uso demasiado da Internet, principalmente às redes sociais.

Associado ao estudo, ao conhecimento e à pesquisa, é sempre muito salutar escutar a voz dos sábios e, por essa experiência, por mais humilde que seja, agrega-se valor substancial a nossa vida sobre o entendimento e relevância das coisas, sobretudo ajuda nos situar acima das idiossincrasias do mundo contemporâneo. Assim, reproduzo a história, fato ou não, o encontro do jovem [pode ser eu ou você] com o maior Sábio da Grécia antiga, Sócrates.

Um jovem homem foi ao encontro do filósofo Sócrates carregando uma informação que julgava de seu interesse:

– Quero contar-te uma coisa a respeito de um amigo teu!

– Espera – disse o Sábio. Antes de contar-me, quero saber se fizeste passar essa informação pelas três peneiras?

– Três peneiras? Que queres dizer?

– Devemos sempre usar as três peneiras. Se não as conheces, presta bem atenção. A primeira é a peneira da VERDADE. Tens certeza o que queres dizer-me é verdade?

– Bem, foi o que ouvi outros contarem. Não sei exatamente se é verdade.

– A segunda peneira é a da BONDADE. Com certeza, deves ter passado a informação pela peneira da bondade. Ou não?

Envergonhado, o jovem respondeu:

– Devo confessar que não.

– A terceira peneira é a da UTILIDADE. Pensaste bem se é útil o que vieste falar a respeito do meu amigo?

– Útil? Na verdade, não!

– Então, disse-lhe o Sábio, se o que queres contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que o guardes apenas para ti.

Não dá para saber se aconteceu o diálogo, mas recheia fielmente a filosofia deste pensador. As três virtudes acima são importantes para viver uma vida virtuosa, onde a moralidade e o conhecimento estão ligados, segundo o Sábio Sócrates. Mas também, segundo ele, é um meio para descobrir e constituir um critério eficaz para diferenciar os verdadeiros dos falsos sábios.

 

veja O que é o Homem?

Veja Harmonia do homem com Deus na concepção de Pitágoras

Veja A Virtude do Conhecimento e a Caverna

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