Ensaio sobre o deus morto na obra de James Frazer

roda do destino

Roda da Fortuna numa gravura de 1165 

 

Ilustração no livro Hortus Deliciarum (Jardim das Delícias)

 

 Por João Fábio Braga

in memorian ao ir. Octaviano Gonçalves Cardoso Neto[1]

 

Ao longo da história da humanidade, referências não faltam que demonstre a evolução do pensamento, diversos povos manifestaram através de ritos, de mitos e de outras manifestações folclóricas esse avanço.

O antropólogo James Frazer[2] fez um extenso estudo comparativo dos mitos de vários povos primitivos e de civilizações antigas. Na obra o Ramo de Ouro, sua principal obra, o que chama atenção é sobre o arquétipo[3] do deus morto presente em várias religiões.

Antes de avaliarmos isso, é necessário considerar, de maneira breve, o conceito de magia de Frazer, pois está ligada a compreensão da própria estrutura arquetípica. Segundo o antropólogo, a magia tem por objetivo controlar por meio de “ritos” (técnicas) o mundo e os acontecimentos (assim o pensamento funcionou como mágico, religioso e científico).

Numa determinada etapa da evolução do pensamento, os homens começaram a relacionar os elementos da natureza a “um pensamento, uma vontade” a deuses. Daí resultou o nascimento da religião. É nesse processo de evolução anímica da magia que os homens procuraram “imitar” ou emular os elementos ou ações da natureza.

Aplica-se a isso um dos princípios da magia, a lei de similaridade justaposta ao entendimento do funcionamento dos sortilégios, é chamada de magia homeopática ou imitativa. Em suma, Frazer compara esse tipo de magia a um sistema espúrio da lei natural, isto é, o conjunto de regras que determinam as sequências dos acontecimentos.

Em outro princípio, o do contágio, a magia por contágio se baseia na associação de ideias pela contiguidade, por exemplo, segundo Frazer – “a crença de que coisas que, em certo momento, estiveram ligadas, mesmo que venham a ser completamente separadas uma da outra, devem conservar para sempre uma relação de simpatia, de modo que tudo o que afete uma delas afetará similarmente a outra.”

Nesse aspecto, de acordo com o princípio da magia simpática por contágio, o caso do rei que fora associado a um deus e sua morte fora inevitável por ser fraco ou velho, demonstra-se ao grupo a incapacidade de desempenhar adequadamente suas funções como protetor do curso da natureza porque sua fraqueza ameaçará a fertilidade da mesma. Consequência é a sua morte e a sua substituição por seu sucessor renovando a fé e a esperança numa boa colheita: le roi est mort, vive le roi (o rei está morto, viva o rei).

“O rei ou sacerdote divino conserva sua função com o assentimento do povo até que alguma deficiência evidente, algum sintoma visível de má saúde ou envelhecimento, mostre sua incapacidade de cumprir os deveres divinos; mas só quando tais sintomas são claros é ele eliminado. Há certos povos, porém, que julgam pouco seguro esperar até mesmo pelo mais leve sinal de decadência, e em lugar disso preferem matar o rei enquanto ainda está em pleno vigor. Assim, fixam um prazo para o seu reinado, findo o qual ele tem de morrer.” James Frazer

Em sua tese, numa passagem em particular, os mitos da criação, em todas os mitos antigas, apresentam-se, variavelmente, ressalva-se detalhes, com a mesma composição arquetípica. É o caso do deus morto. Esta ideia é encontrada, segundo o autor, em várias culturas. O deus morto é uma estrutura psíquica que está relacionada à construção simbólica da natureza em seus ciclos regenerativos, ou seja, morrer e se regenerar.

Em outras tradições herméticas este conceito também aparece, principalmente quando

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Ouroboros

 

se reproduz a ideia cíclica de eterno retorno. Na tradição alquímica, por exemplo, Ouroboros, a serpente enrolada em circulo que come a ponta da cauda, significa o símbolo de ciclo de vida e de morte. Na tradição da taromância, a lâmina do tarô que representa este Mistério é a lâmina Roda da Fortuna, que iconograficamente simula o ciclo de ascensão, queda e mudanças.

Importante perceber que em outras tradições essa estrutura do arquétipo se faz presente, tornando esses dados factuais e conectados. Frazer cita o caso do poder. Os ciclos de poder são observáveis na estrutura das sociedades antigas, cujo sentido de que é somente pela morte do rei anterior que o novo rei pode assumir. Daí o ciclo morte-regerenação-ressurreição assume essa compostura arquitípica no inconsciente coletivo da humanidade e que se repetiu em todos os Mistérios espelhados pela antiguidade.

As celebrações e cerimônias místicas que se realizavam em Elêusis, nos santuários egípcios de Ísis, na Samotrácia, nos templos hindus e nas florestas druídas, em todas elas incorporavam a celebração dos Mistérios, a fim de garantir a perenidade de suas vidas espirituais e ao mesmo tempo a sobrevivência de suas sociedades.

Segundo o autor, o paralelismo simbólico existente, por um lado, entre a morte e a

roda da fortuna

A Roda da Fortuna, Lâmina de número 10 no tarô de Marselha

 

ressurreição dos deuses e, por outro, com os ciclos e ritmos regenerativos da Natureza, está conectado, no centro desse rito, a necessidade de se realizar um sacrifício contínuo da vida como forma de proporcionar a sua perenidade: o deus morto ou herói se sacrificam pela salvação de seu povo, ou seja, assegurar a continuidade salvífica.

O ramo de ouro, símbolo da imortalidade, serviu de tema para inspiração de Frazer, com intuito de universalizar sua comparação dos povos antigos aos de hoje, como algo inerente às sociedades. Em poucas linhas resumo o mito que serviu de título para obra. O ramo de ouro deveria ser cortado de uma árvore localizada em um bosque sagrado à deusa Diana, a virgem, guardiã das florestas. Mas a árvore era vigiada incansavelmente noite e dia por um sacerdote guerreiro e sabia se relaxasse em algum momento, alguém o mataria e ficaria no seu lugar.

O deus morto é um arquétipo explorado por Frazer com grande maestria e ajuda compreender a história da humanidade e seus conflitos. Para além disso, acreditamos, que arquétipo pode acobertar Segredos e Mistérios que estão vinculados aos ciclos de vida e de morte, intrinsecamente associado ao tempo, ao espaço e à magia, não só das sociedades, do poder e dos costumes, também da experiência espiritual do próprio indivíduo: a morte iniciática é o nascimento da consciência interior, o prelúdio de uma nova jornada.

 

[1] Octaviano Gonçalves Cardoso Neto foi e sempre será um grande irmão. A minha admiração é enorme e satisfação em poder compartilhar da sua convivência, sobretudo juntos em prol da felicidade da humanidade. O último contato com o irmão foi uma conversa em torno do tema apresentado e o mesmo me engrandeceu com a sua sabedoria. Onde estiver meu querido e amado irmão, no Or.’. Eterno, que G.’.A.’.D.’.U.’.  ilumine teu espírito sempre.
[2] James Frazer (1854 – 1941) foi um influente antropólogo nos primeiros estágios dos estudos modernos de mitologia e religião comparada. A sua principal obra O Ramo de Ouro.
[3] Os arquétipos são conjuntos de “imagens primordiais” originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo, conceito desenvolvido pelo psicanalista Carl Jung.
Referencia Bibliográfica:
– FRAZER, James. O Ramo de Ouro. São Paulo: Círculo do Livro, 1978.
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O jeito árabe de amar

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Amor entre Aladdin & Jasmine

Por João Fábio Braga e dedicado com amor à Maria Luiza

No início do século XIII, Ibn Arabi[1] chega a Meca, onde é acolhido fraternalmente por um eminente xeque, por sua irmã e pela sua bela sobrinha Nizam.

Após muitas outras noites felizes juntos, acompanhado por discussões que giram em torno das grandes questões da vida e da morte. Numa determinada noite, Ibn Arabi começou a recitar alguns versos em voz alta durante uma caminhada em torno da Caaba[2].

De repente, ele sente um toque mais suave no ombro. Ao se virar, sente-se perplexo diante de tamanha beleza excepcional. Ela sorri ao mesmo tempo em que o sol está nascendo.

Não demora muito, ele descreve a ela sobre os seus negros cabelos cacheados e a sua língua de mel: “Ela é uma linda menina terna e virgem de seios intumescidos. Luas cheias sobre galhos sem mais temor de minguar… Uma pomba empoleirada sobre um galho no jardim das terras do meu corpo, morrendo de desejo, derretendo de paixão.”

Ibn Arabi encanta-se com presença intensamente erótica e da personalidade misteriosa e secreta de Nizam. A partir de então, o semblante de Nizam começa iluminar as noites de Ibn Arabi: “Meu dia no negror dos seus cabelos”… ele se apaixona e o desejo chega a doer.

Ele escreve: “Meu coração está doente de amor. Teus jardins molham de orvalho e tuas rosas florescem, tuas flores sorriem e teus ramos enternecem.”

No encanto, sabe Ibn Arabi, havia um elemento desafiador: “Teu olhar é espada empunhada.” Ibn Arabi se encoraja a aceitar o desafio de “atravessar o deserto”, tal como os cavaleiros cristãos desafiados a realizar atos de nobreza em nome de um amor romântico pelas damas da corte.

Nessa inspiração, o amor de Ibn Arabi por Nizan o transcende por uma elevada energia que o faz enfrentar o mesmo desafio.

Assim como a vida, o amor é um mistério. A paixão eleva o estado de consciência. Quando estamos apaixonados percebemos as forças que nos trouxeram a este mundo. E mesmo o mundo sendo racional e instrumental, o amor nos abre para os grandes segredos e mistérios das outras dimensões do universo.

A experiência do amor desafia o intelecto. Mil teorias, ideias, poemas e histórias falaram de amor e de paixão ao longo dos tempos. Mas racionalmente o que seria esse fenômeno? Afinal, qual é a fonte do amor? Segundo Ibn Arabi, o amor que move o universo também nos move e se move por meio de nós, de modo que quando amamos acabamos experimentando, provando, diretamente o amor universal.

[1] Árabe espanhol foi xeque do sufismo, principal organização  que impulsionou o misticismo no seio do Islã.
[2] A Caaba é a Casa sagrada de Deus situada no meio da mesquita sagrada na cidade de Meca, na Arábia Saudita.  A Caaba é um cubo negro. E todo mulçumano deve ir a este local pelo menos uma vez na vida. “Deus designou a Caaba como Casa Sagrada, como local seguro para os humanos.” (Alcorão 5:97)

veja também O Refúgio dos Magos

veja também “O Paraíso repousa na sombra da Espada!”

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Assembléia na marcenaria

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Resgatar valor das relações humanas nas organizações de trabalho, na família e nas instituições, no sentindo que cada um tem o seu papel e sua importância, é um grande desafio numa sociedade em que a concorrência é cada vez maior, o egoísmo se alastra e afasta as pessoas.  É o que parece, em alguns casos, ou em sua maioria, cada um entende a sua maneira e não há preocupação com a função do outro, colocando os valores das organizações em crise, o que pode descambar numa verdadeira tragédia. Vejamos a estória.

Contam que, certa vez, na marcenaria houve uma estranha assembleia: uma reunião das ferramentas para acertar suas diferenças.

O martelo exerceu a presidência, mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar. Mas por qual motivo, ele perguntou. Responderam-lhe, – fazia demasiado barulho e, além do mais, passava todo o tempo golpeando.

O martelo aceitou sua culpa, porém pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir alguma coisa.

Diante da ofensiva, o parafuso concordou, e não hesitou, por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.

Não cessaram as acusações às outras ferramentas. Aceitaram seus defeitos, sob o pretexto de que cada ferramenta acusada se retirasse da marcenaria.

No meio da calorada discussão e sem nenhuma definição, entrou o marceneiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro, o parafuso e outros. Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino, bonito e elegante móvel.

Quando a marcenaria ficou novamente a sós, a assembléia reativou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:

“Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o marceneiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.”

Todos da assembléia começaram a compreender que cada um era imprescindível ao outro. Juntos eram melhores. O martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas e o metro era preciso e exato.

Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.

A metáfora serve de uma grande lição para todos nós. Basta observar e comprovar. Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa. Ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas. É fácil encontrar defeitos. Qualquer um pode fazê-lo. Mas encontrar qualidades, isto é para os sábios, sobretudo quando essas qualidades superam o ódio, a vaidade e a ignorância.

Veja o posto A Sabedoria Sioux

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Reflexão rápida sobre o Arcano II

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A curiosidade em torno da lâmina, conta os autores, é que a figura da papisa pode estar relacionada a um fato histórico, ou lendário, que permeou a literatura medieval: a existência de um papa do sexo feminino, conhecida como Papisa Joana, ou outro nome que ficou conhecido – Papa VIII.

 

Por João Fábio Braga

A Papisa representa a Sabedoria, a Casa de Deus, a Lei e a Reflexão. Simbolicamente, no sentido mais restrito, estão ligados ao princípio feminino, ao receptivo e ao materno; a intuição e ao mistério.

Podemos entender este arcano pelo prisma do número dois. O dois, por exemplo, não carrega, como se difundi em algumas tradições, uma orientação negativa ou de caráter duvidoso e contraditório, muito pelo contrário, o número dois está associado à passividade, ao feminino e ao repouso. A Papisa é o próprio repouso. É Deus que, depois da criação, repousa.

Outro aspecto fundamental e inerente ao número dois e a polaridade do universo é o binário. Nesse sentido, o binário representa o rompimento da unidade, em outras palavras, o abandono à causa primeira, o caos essencial. Por essa razão, o início da busca da identidade, por via iniciática, começa quando se dar conta da necessidade de reintegração à unidade ou ajudar a manter o equilibro das forças elementares que produzem o conflito.

Outra característica interessante do arcano é o Véu que recobre a Papisa e o livro aberto que está lendo. A existência deste véu fez com que muitos autores identificassem a Papisa com a deusa egípcia Ísis, e segundo Plutarco, numa inscrição gravada numa estátua no templo de Sais: Sou tudo que foi, tudo que é e tudo que será, e meu véu não foi rasgado por nenhum mortal.

Segundo outros autores, a Papisa seria “A Porta do Santuário”. O livro que está lendo simbolizaria o Livro da Vida [relacionaria a Torá, Bíblia]. Segundo um determinado autor, o termo Tarô significa: “o caminho real da Vida”. Este é o Livro da Vida e para lê-lo a descoberto é necessário ler “com os olhos do coração”.

O mistério do Arcano II está íntimo no interior de todos nós; é Mãe, esposa, virgem celeste. A Papisa ou Sacerdotisa se encontra na passagem entre o exterior e o interior; entre a ignorância e o conhecimento; entre a preguiça e o sentido prático; entre hipocrisia e a verdade.

 

 

Leia – Reflexão rápida sobre o Arcano I

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Simplesmente acontece

amor

De João à Maria

Há tempos esperei o vento trazer a grande novidade.
Ela veio em formato de gente,
Com aquele sorriso e olhar que se sente.
E sem perceber o tempo, como um relógio quebrado,

as horas passaram,  seu jeito me abriu a mente,
ganhou-me espaço, forma e sentimento.
Foi a descoberta à vista ao coração por inteiro
que inesperadamente, sem qualquer razão, ainda bate.

Velejam-se entre os dedos das minhas mãos seus lindos cabelos,
num movimento lento e constante dos ventos,
sob o luar e seus reflexos nas águas escuras do Rio Negro

Aconteceu em cada abraço, em cada sussurro,
em cada gesto, em cada riso, em cada olhar, os nossos beijos.
Sobreveio da amizade o inevitável, o amor apareceu entre nós dois.

 

O poema é dedicado a uma pessoa muito especial, com muito amor e carinho, à Maria Luiza.

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Orgulho cínico de Diógenes

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Muitas histórias eram contadas sobre Diógenes[1]. Muitas anedotas sobre ele individualmente são muito difíceis de saber se aconteceram de verdade, mas elas expõem e revelam a mentalidade extremista da escola cínica da época, por essa razão reproduzo algumas das histórias.

A lanterna de Diógenes

Essa história chegou dele chegou a ser uma das histórias mais famosas do mundo antigo. Segundo ela,

“o famoso gênio vagabundo andava, certo dia, em plena luz meridiana, na praça pública, com uma lanterna na mão, como que a procurar algo que não conseguisse achar; interrogado sobre o que fazia, respondeu que andava à procura de um homem. Entendia Diógenes que os chamados ‘homens’, que enchiam a praça, não eram homens de verdade, porque não haviam renunciado à posse dos bens materiais e desprezado todo conforto individual; só o homem despossuído de tudo, o filósofo cínico radical, é que era homem genuíno e autêntico.”

O oco da mão

Em outra história,

“Viu Diógenes um menino que se servia do oco da mão para beber água dum rio, ao que o filósofo lançou fora a concha de molusco que usava para beber, exclamando: ‘Vergonha para mim, ter de aprender filosofia de uma criança!’ Desde então, Bebia água com a mão.”

O imperador e o cínico

Não é por acaso que a fama do filósofo chegou até a corte real de Alexandre, O Grande, imperador da Macedônia. Relataram,

“Numa tarde fria de inverno, quando o imperador se achava em Atenas, foi visitar o rei dos cínicos, o qual recebeu o ilustre visitante sentado no chão à entrada do seu velho tonel. Alexandre, O grande, perguntou ao filósofo se tinha algum desejo que ele, o imperador, lhe pudesse satisfazer; e pela primeira vez, com estupefação geral, Diógenes respondeu que tinha um desejo – quando sua filosofia preceituava não possuir nada nem desejar coisa alguma. À pergunta do grande Macedônio sobre esse desejo, respondeu Diógenes: ‘Não me tires o que não me podes dar’. É que a sombra de Alexandre caía sobre o corpo desnudo de Diógenes, naquela fria tarde de inverno, tirando-lhe o calor solar. Assim que o imperador compreendeu o sentido das palavras do cínico, desviou o corpo – Diógenes era outra vez plenamente feliz.”

Encontro de Mestres

De todas estas histórias relatadas, existe uma da qual mais gosto, relato logo abaixo.

“Certa vez, visitou Diógenes, em Atenas, onde o grande filósofo Platão, abastado proprietário e possuidor de um belo palacete. Ao entrar na residência do aristocrata, começou o cínico, mui de acinte, a limpar os pés sujos nos preciosos tapetes do palacete platônico; à pergunta do dono da casa sobre o que estava fazendo, respondeu Diógenes: ‘estou calcando aos pés a vaidade de Platão!’ Ao que o exímio pensador ateniense acrescentou calmamente: ‘… com a vaidade de Diógenes’. Quer dizer que a vaidade de Platão consistia em possuir algo, enquanto a vaidade de Diógenes estava em não possuir nada – restava saber qual das duas vaidades era pior…”

As histórias da laterna e o encontro com o Platão, de maneira curiosa, revelam a natureza da vaidade de Diógenes. Assim como os sofistas e suas variações hedonistas, por meios de vantagens de todos os tipos, atendendo abundantemente suas próprias orgulhosas vaidades, os cínicos atendiam também as suas próprias, mas as suas empáfias absolutas eram da desposse e entre eles, Diógenes se considerava a si mesmo como sendo o único homem integral. Ou seja, a mais extrema renúncia ascética pode andar de mãos dadas com o mais apurado orgulho.

O mundo de hoje está cheio deles!

 

[1] Um dos cínicos de maior destaque e que levou ao extremo o desprezo do conforto pessoal e das conquistas da cultura e da civilização humana, foi conhecido como Diógenes de Sípone. Ele vivia desnudo, em um velho tonel, na Ágora (mercado) de Atenas.

 

Referência:

– ROHDEN, Huberto. O Pensamento Filosófico da Antiguidade, vol 1. São Paulo: Ed. Alvorada.

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O Homem é “cachorro”?

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“Certa vez, Alexandre foi até ele, postou-se à sua frente e disse-lhe: ‘sou o rei Alexandre, o Grande’. Ele replicou: ‘e eu sou Diógenes, o Cão’. Quando lhe perguntaram o que costumava fazer para o chamarem de cão, ele respondeu: ‘abano a cauda para os que me dão; ladro para os que me negam; e mordo os perversos’”

 

Por João Fábio Braga

“Eu não sou cachorro não/Pra viver tão humilhado/Eu não sou cachorro não/Para ser tão desprezado”. Waldick Soriano

 

Segundo uma corrente de ação filosófica, os cínicos responderiam sim! Para eles, o homem encontraria a verdadeira felicidade num estilo de vida natural, espiritual, onde a expressão das ações, atitudes e escolhas dizem mais do que palavras escritas ou meras retóricas. Por essas ações, ficaram conhecidos, por levarem ao extremo uma “vida de cachorro”.

Um dos cínicos de maior destaque e que levou ao extremo o desprezo do conforto pessoal e das conquistas da cultura e da civilização humana, foi conhecido como Diógenes de Sípone. Ele vivia desnudo, em um velho tonel, na Ágora (mercado) de Atenas. Vejamos com mais detalhes.

————

Na antiguidade, existiam duas escolas antropocêntricas[1]: as dos sofistas e dos socráticos. Ambos discutiam, em princípio, se o homem é a medida de todas as coisas, o seu destino está em ser integralmente feliz; e para ser feliz, o homem, concluíram, deve conhecer a si mesmo e viver em harmonia com esse conhecimento.

Os sofistas reconheciam que a felicidade do homem consiste em ser fiel a seu ego individual, pois atenderia por todos os meios o seu interesse e sua prosperidade. Esta concepção refuta, segundo os sofistas, toda realidade que ultrapassa a objetividade do ego individual, admitindo ser ilusão, utopia. A felicidade não poderia ter por base senão o real e o verdadeiro, porque qualquer sonho idealista, distante da realidade objetiva da natureza humana, é prejudicial à verdadeira felicidade.

Em termos práticos, isso quer dizer, dizem os sofistas, o homem deve por todos os meios contribuir para promover a felicidade de seus semelhantes, ou seja, quanto mais o indivíduo promove a felicidade dos outros, tanto mais favorece a sua própria felicidade. Por esta orientação surgiu a concepção de hedonismo, palavra derivada do grego hedoné, que significa “prazer”. Esta ideologia prega as satisfações pessoais do homem, sejam de natureza qualquer, como objetivo e único destino de vida, no sentido largo, supremo e que leve o homem a gozar integralmente a felicidade, sejam as satisfações de caráter econômico, social, científico, etc.

diogenes1Contra esta pregação sofista-hedonista, insurgiu numa determinada ala da escola socrática e corrente de ação filosófica, alguns homens buscaram o conhecimento e a felicidade na negação extrema dos prazeres, da matéria e do corpo. Segundo eles, o homem não é o seu ego material-individual, mas sim o seu ego espiritual-universal, portanto, dentro deste paradigma, a felicidade do homem consiste naquilo que representa a verdadeira natureza humana: o desapego material. Exclusivamente, por essa razão, chegaram algum deles a levar uma “vida de cachorro”, por isso mesmo foram apelidados de “cínicos”, palavra derivada do grego “Kyon” que significa “cão”.

Esses “ascetas da filosofia” acreditavam na renuncia do corpo, por ser obstáculo ao conhecimento, ou seja, o corpo, e tudo o que ele significa (percepção, paixão, instinto, emoção), dizia Platão, deve ser anulado para que a razão seja exercitada. Nesse sentido, dizem os cínicos, a espiritualidade ascética se afirma no campo da espiritualidade racional e da metafísica-ética, com intuito de se alcançar a verdade, mesmo que fosse preciso desejar a morte. O abandono da corporeidade exigia exercício e esforço, sobretudo porque a concepção de corpo representaria o túmulo da alma (Platão) ou um verdadeiro obstáculo à alma. O que os cínicos desejavam, na verdade, era desprendê-la do corpo, quanto mais desprezo aos prazeres da carne, cada vez mais limitaria o contato com o corpo, salvo nos casos de extrema necessidade.

Será que hoje em dia conseguiríamos viver ao estilo dos cínicos? Muitos por ai sem o domínio do conhecimento ou consciência filosófica vivem minimamente. Porém, a pessoa mais feliz, dizia Diógenes, é, por consequência, alguém que vive de acordo com os ritmos do mundo natural, livre das convenções e dos valores da sociedade civilizada e “se satisfaz com o mínimo”. Diante de tudo isso, o homem faz jus a condição de ser cínico ou de ser cachorro!?  O que o leitor escolhe?

[1] Todo pensamento ou conhecimento atribuído a determinados sistemas filosóficos  ou religiosos que concebem a centralidade do homem em relação a todo universo.
Referência Bibliográfica:
O Livro de Filosofia (colaboradores). São Paulo: Globo, 2011.
NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de Filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005.
ROHDEN, Huberto. O Pensamento Filosófico da Antiguidade, vol 1. São Paulo: Ed. Alvorada.
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